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Alunos de Medicina da UFF debatem Bioética no Projeto Ghente.
Biotecnologia, religião e aborto foram os temas escolhidos
Karla Bernardo

Estudantes de medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF)
estiveram na Fiocruz para uma manhã de troca de informações com
integrantes do Projeto Ghente. O assunto em pauta foi Bioética, um dos
temas mais procurados no Projeto Ghente, seja através do site, da
lista de discussão ghente-l ou nos eventos organizados pelo projeto.
Ao chegarem na Fiocruz, os alunos foram recepcionados por uma equipe
do Museu da Vida, que realizou visita guiada ao Castelo Mourisco. O
guia comentou com os alunos os principais desafios de saúde pública
que os pesquisadores Oswaldo Cruz e Carlos Chagas enfrentaram desde a
inauguração do Instituto Soroterápico Federal e depois, em 1900, do
Castelo-símbolo da Fiocruz. Naquela época a Peste Bubônica, doença causada por uma
bactéria e transmitida pela picada da pulga, ameaçava o país e foi
combatida graças a determinação dos cientistas da Fiocruz.
Apesar do sucesso no combate a epidemias, o médico bacteriologista
Oswaldo Cruz foi alvo de indignação e revolta, devido aos seus métodos
de combate às doenças. Uma das mais conhecidas revoltas cariocas foi a "Revolta da Vacina", em 1904, onde a população indignada com a Lei da
Vacina Obrigatória contra a varíola causou destruição e caos na cidade
do Rio de Janeiro. Hoje, com a consolidação dos preceitos da Bioética,
poderíamos questionar: É correto impor, por força de lei, que pessoas
sejam vacinadas?
Mais de um século depois, com o avanço da medicina, do acesso à
informação e principalmente das tecnologias moleculares, questões de
ordem moral e ética surgem a partir dos novos impasses advindos da
transformação da natureza humana, por exemplo, através das técnicas
da engenharia genética e do acesso, uso e remessa de material
biológico humano de uma maneira geral. Este foi o tema da segunda
parte da visita.
Debate sobre Bioética
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Maria Celeste Emerick destaca a importância do debate nacional sobre
Acesso, Uso e Remessa de Material Genético Humano |
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A socióloga e Coordenadora Geral do Projeto Ghente, Maria Celeste
Emerick, explicou que o Brasil precisa intensificar o debate nacional
sobre esta nova realidade mundial, onde pessoas ou suas partes
biológicas estão sendo utilizadas em pesquisas para fazer avançar o
conhecimento científico: "O Projeto Ghente foi criado a partir desta
necessidade de discussão. Esta é uma excelente oportunidade para esta
conversa, já que estamos aqui com futuros médicos", o que concordou o
bioeticista Fermin Roland Schramm: "Quem exerce a medicina não
trabalha com pedras ou com átomos e sim com pessoas, que sofrem as
conseqüências positivas ou negativas das práticas médicas. O Projeto
Ghente é uma excelente iniciativa para refletir sobre este tema",
afirmou.
O Bioeticista Fermin Roland Schramm debate Bioética com os alunos de
medicina da UFF
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Autor de vários livros na área da Bioética, o bioeticista e conselheiro do Projeto Ghente, Fermin Roland Schramm comandou debate
relevante e descontraído sobre temas escolhidos pelos alunos. O
primeiro foi a relação entre Biotecnologias e a Religião. Na visão de
Schramm, é importante separar as crenças religiosas das discussões
relacionadas a ética aplicada e a Bioética " Existe um conflito
profundo entre as religiões do tipo monoteístas e as discussões éticas
e bioéticas. Enquanto aquelas pretendem definir, por força de seu
autoritarismo visões de mundo aplicáveis para todos, impondo suas
doutrinas sem aceitar questionamentos, o produto da ética aplicada e
da bioética é o resultado de conversações, diálogos, negociações
entre pessoas de crenças e valores diferentes que buscam um consenso
sobre questões que estão na ordem do dia, como por exemplo, aborto,
eutanásia, reprodução assistida e outras que têm efeito direto sobre
nossas vidas.", afirmou, ressaltando que a ética aplicada e a bioética
procuram garantir a autonomia do sujeito de definir suas próprias
escolhas e assumir as responsabilidades de seus atos. "A vida será mais
problemática a partir das próximas gerações se não enfrentarmos os
problemas éticos de forma cidadã agora" destacou.
O aborto foi outro assunto polêmico tratado na visita. Tays Clarindo
Suzana, estudante do primeiro período de medicina perguntou a opinião
de Schramm sobre a liberação do aborto. Para ele, o aborto deve ser
legalizado: "Por princípio e por questões de cálculo das conseqüências
possíveis, já que na minha opinião, a legalização traria menos
sofrimento que a proibição traz atualmente". Já a aluna Laiz
Boniziolli Barachi, questionou sobre a gravidez na adolescência. Ela
perguntou se uma menina de 12 anos teria discernimento suficiente para
optar pelo aborto, ou a decisão pela continuidade desta gravidez
deveria partir dos pais. Para Schramm, quanto mais desprotegida a
gestante estiver, maior o sofrimento e mais sentido faz o aborto "Neste caso, não importa a idade da gestante. É necessário fazer o
cálculo consequencialista. Existem duas tendências da filosofia
moral:
a teoria teontológica, que é a base dos códigos de ética e a teoria
teológica, que leva em conta as finalidades e conseqüências de nossos
atos. Se esta menina tiver que ser mãe contra a sua vontade, qual
prejuízo esta decisão acarretará para a vida desta menina? E para a
vida da criança gerada? Eu defendo que a decisão sempre tem que ser
da gestante: optar por ter ou não a criança e assumir as conseqüências
da sua opção, independente da idade ou da opinião dos pais", opinou.
A graduanda Tays Clarindo ressaltou que um outro conflito se impõe
nesta situação: "A Bioética trata de proteção à vida, mas no caso do
aborto, está sendo proposto a destruição da vida", argumentou. Sobre
esta afirmativa, Schramm respondeu que existe um conflito de
interesses: "O aborto deve ser feito apenas se a gestante não
reconhecer o "outro" que está dentro de si. É melhor desta maneira do
que como era feito antigamente, onde existiam as rodas dos inocentes
nas igrejas. Ter e abandonar não me parece legítimo", opinou.
No caso do aborto por problemas genéticos, Roland Schramm alerta para
necessidade de avaliação cautelosa: "É preciso alertar para o
problema da eugenia da medicina preventiva, preditiva, porque se pode
deslizar muito facilmente para um fascismo biológico perigoso", alerta.
Sobre este assunto, o professor da turma, Marcos Senna, da disciplina
Trabalho de Campo-Sociedade e Saúde, destacou a importância de visitas
como esta para ampliar o horizonte do conhecimento dos alunos: "A
visita ao Projeto Ghente possibilitou inserir os graduandos de
medicina nos temas atuais que envolvem a Bioética. A própria
trajetória de Oswaldo Cruz nos fez hoje refletir sobre a conseqüência
dos atos médicos na sociedade. Temos a responsabilidade de contribuir
para este debate", destacou.
No final do encontro, os alunos foram convidados a participar
constantemente das discussões propostas pelo Projeto Ghente, através
da página na internet, (www.ghente.org) opinando nos fóruns propostos e
na lista de discussão ghente-l.
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Graduandos de Medicina da UFF,Professor Marcos Senna e a jornalista
Karla Bernardo |

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