Leonardo Augusto Karam Teixeira
MSc-Genética e Biologia Molecular-UFRGS
Aluno de doutorado-Deptº Bioquímica-UFRJ.
A transferência de material genético como forma de
tratamento de doenças humanas vem sendo investigada desde
o início da década de 70. A confirmação
de que genes inativos ou defeituosos responsáveis por determinada
enfermidade poderiam ser substituídos por genes funcionais
revolucionou os conceitos terapêuticos disponíveis
até então. Uma alteração genética
pode originar uma proteína anormal ou resultar na ausência
desta proteína. Em qualquer dos eventos, a falta da proteína
normal pode ocasionar uma série de manifestações
clínicas, desde disfunções leves até
doenças fatais, dependendo da função desta
proteína na célula. Assim, o princípio básico
da terapia gênica consiste em adicionar fatores genéticos
que possam suprir deficiências ou até mesmo inibir
a expressão de certos genes no tecido ou nas células-alvo.
Diversos métodos têm sido desenvolvidos e aprimorados
para o transporte de genes às células somáticas.
O processo de transferência gênica é realizado
por vetores que funcionam como veículos carreadores de genes
para o interior das células. Estes vetores podem ser de natureza
biológica, como por exemplo os vírus que naturalmente
são capazes de infectar e inserir sua informação
genética em diversas células do organismo, ou ainda
de natureza química ou física. Cada um dos sistemas
de transferência gênica disponíveis apresenta
suas vantagens e desvantagens, cabendo ao pesquisador a escolha
do procedimento mais adequado a cada caso. A administração
dos vetores pode ser realizada basicamente de duas formas. Comumente,
as células-alvo são removidas do organismo, expostas
ao contato com os vetores ex vivo e finalmente introduzidas no indivíduo
após a modificação genética. No segundo
método, o veículo é administrado diretamente
ao paciente, permitindo, dessa forma, uma interação
in vivo entre o fator genético e o tecido ou célula-alvo.
O primeiro experimento de transferência genética para
células somáticas humanas aprovado pelos órgãos
americanos “Recombinant DNA Advisory Committee” (RAC)
e “Food and Drug Administration” (FDA) foi realizado
em maio de 1989 no “National Institutes of Health” (NIH,
Bethesda, USA) pelo grupo do pesquisador S.A. Rosenberg. Cinco pacientes
terminais com câncer de pele (melanoma) receberam linfócitos
T infiltrantes (TILs) expandidos e modificados geneticamente in
vitro com um gene marcador através de um vetor retroviral.
Estes linfócitos puderam ser monitorados in vivo e apresentavam
a capacidade de reconhecer e atacar células tumorais. Em
setembro do ano seguinte, foi aprovado o primeiro protocolo clínico
de terapia gênica com finalidade terapêutica, realizado
na mesma instituição por R.M. Blaese e colaboradores.
A deficiência da enzima adenosina desaminase (ADA) é
uma doença genética rara que ocasiona um comprometimento
imune severo em crianças (SCID, “Severe combined immunodeficiency”).
Linfócitos T periféricos de duas crianças que
apresentavam disfunção desta enzima foram modificados
geneticamente ex vivo através de um vetor retroviral carregando
o gene da ADA e reimplantados de forma autóloga através
da corrente sanguínea. Além disso, essas crianças
receberam também a enzima ADA bovina purificada (PEG-ADA)
por administração exógena. Os resultados foram
animadores, contudo não existem evidências conclusivas
sobre a contribuição precisa do procedimento de terapia
gênica independente do tratamento alternativo.
O tratamento de doenças humanas através da transferência
de genes foi originalmente direcionado para doenças hereditárias,
causadas normalmente por defeitos em um único gene (e.g.,
fibrose cística, hemofilias, hemoglobinopatias e distrofia
muscular). Entretanto, a maioria dos experimentos clínicos
de terapia gênica atualmente em curso está direcionada
para o tratamento de doenças adquiridas como a AIDS, doenças
cardiovasculares, e diversos tipos de câncer (de mama, de
próstata, de ovário, de pulmão e leucemias).
Em 2002, mais de 600 ensaios clínicos já estavam disponíveis
a aproximadamente 3.500 pacientes em todo o mundo. Atualmente, mais
da metade dos protocolos clínicos de terapia gênica
em curso apontam para o tratamento de algum tipo de câncer
como doença-alvo. Em segundo lugar, aparecem as doenças
monogênicas correspondendo a 12% dos protocolos clínicos
aprovados, seguidos, em grande crescente, pelas doenças cardiovasculares
e infecciosas contribuindo com 8 e 6% dos protocolos, respectivamente.
Esses três grandes grupos englobam mais de 90% de todos os
pacientes que estão sob algum tipo de tratamento através
da terapia gênica, concentrados principalmente nos Estados
Unidos e nos países da Europa.
Apesar dos diversos protocolos clínicos aprovados para a
transferência de genes em humanos, não existe, até
o momento, um único procedimento que tenha obtido êxito
total no tratamento de uma doença. Muitas barreiras ainda
necessitam ser transpostas para que sejam alcançados resultados
satisfatórios através da terapia gênica. Os
métodos de transferência gênica, ainda que variados,
são pouco eficientes e apresentam limitações
quanto ao direcionamento celular e dúvidas quanto a segurança.
A baixa expressão e a ausência de mecanismos precisos
de regulação do gene de interesse na célula-alvo
dificultam ainda mais o avanço da terapia gênica como
ferramenta terapêutica. Outro ponto importante que requer
maior atenção se refere à biologia da célula-alvo.
Uma melhor caracterização e o desenvolvimento de técnicas
para a identificação e o isolamento dessas células
poderá facilitar o direcionamento dos vetores. Além
disso, a exemplo do que ocorre com toda nova tecnologia, a terapia
gênica também tem levantado diversas discussões
nos planos éticos e filosóficos que permanecem em
debate, principalmente em relação ao uso de células-tronco
de adultos e embrionárias. Dessa forma, muitos esforços
ainda são necessários para que este procedimento ofereça
melhoras significativas aos pacientes e possa representar uma prática
rotineira e bem sucedida no futuro.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
ANDERSON,
WF (1998). Human gene therapy. Nature, 392 (6679 Suppl): 25-30.
DANI, SU (2000). Terapia gênica. Biotecnologia Ciência
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ED & ANDERSON, WF (1999). Prospects for in utero human gene
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LINKS
Artigo
do autor: NARDI, NB, TEIXEIRA, LK & SILVA EFA (2002) Terapia
gênica. Ciência & Saúde Coletiva, 7 (1):
109-116.
OBA:
Office of Biotechnology Activities. - Recombinant DNA Advisory
Committee (RAC), National Institutes of Health, Bethesda, MD, USA.
The
Journal of Gene Medicine Website. - Gene Therapy Clinical Trials.
Wiley InterScience, John Wiley & Sons Ltd.
Terapia
Gênica: um objetivo ou uma realidade - Texto de Portugal
(em PDF)
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