Nanotecnologia: Risco das partículas é ignorado
Quinta-Feira 03 de Maio 2007 Fonte : Jornal da Ciência

Pesquisas apontam falta de dados sobre lesões à saúde e ao ambiente

Andrei Netto escreve para “O Estado de SP”:

Depois da euforia no meio científico causada pela explosão dos estudos sobre nanotecnologia - técnica que usa partículas de escala nanométrica, a milionésima parte de 1 milímetro -, pesquisas realizadas na França e nos EUA e relatórios de organizações não-governamentais (ONGs) estão alertando para o perigo de contaminação dos organismos vivos por resíduos, em tese capazes de gerar inflamações pulmonares, no sistema circulatório e no cérebro, entre outras.

As partículas dão origem a materiais mais resistentes ou aderentes, almejados pela indústria.

A tecnologia é possível graças ao montador molecular, ou nanomontador, aparelho que permite a organização de átomos e moléculas de acordo com instruções programadas pelo homem.

O problema é que certas nanopartículas não estariam mais restritas aos centros de pesquisa, mas se espalhando pelo ambiente.

A suspeita dos cientistas é de que os resíduos seriam capazes de penetrar nas barreiras naturais dos organismos vivos, como as alvéolo-capilares, as hemato-encefálicas e as placentárias.

Daí o eventual - e ainda não comprovado - risco à saúde pública, além do perigo ao meio ambiente, a chamada “nanopoluição”.

Nanopartículas já estariam sendo usadas na composição de 500 a 700 produtos das indústrias têxtil, agroalimentar, farmacêutica, médica, eletrônica, informática e militar.

Raquetes de tênis e bicicletas, vernizes industriais e equipamentos médicos como cateteres e próteses teriam nanocomponentes.

A toxicidade das nanopartículas é alvo de controvérsia na França, onde foi montado o Minatec, o pólo de micro e nanotecnologias de Grenoble, cujo orçamento é em parte financiado pelo Ministério da Defesa francês.

Incógnita

“Em escala nanométrica, o estado da matéria ainda não é de todo conhecido e as propriedades químicas, elétricas e magnéticas da tecnologia são uma incógnita. Na verdade, estamos diante de um risco desconhecido”, disse ao Estado Jacques Bordé, diretor de pesquisas do Centro Nacional de Pesquisas Científicas, de Paris.

Estudos preliminares, ressalta o toxicologista e pesquisador do Hospital de Bordeaux Patrick Brochard, indicam que, em contato com a pele, as partículas podem originar reações inflamatórias dos tecidos.

As informações francesas se somam a investigações americanas realizadas na Rice University e no Georgia Institute of Technology, segundo as quais os nanotubos de carbono - moléculas cilíndricas com alta resistência e condução de calor acima da média - são solúveis na água e portanto passíveis de ingestão.

Constatações como essas levaram a Agência Francesa de Segurança Sanitária, do Ambiente e do Trabalho a publicar um alerta sobre o tema.

O relatório aponta que “múltiplos argumentos indicam a existência de uma reatividade particular das nanopartículas. Essa reatividade celular e dos tecidos pode constituir perigo ao homem exposto à inalação, ingestão ou à passagem transcutânea”.

Organizações não-governamentais na França já pregam a moratória da manipulação das partículas.

“As pesquisas sobre nanotecnologia carecem de transparência e democracia. Os produtos já estão nas mãos dos consumidores sem que tenhamos alcançado meios de fiscalizar sua segurança”, diz Yannick Vicaire, encarregado da Campanha sobre Toxicidade do Greenpeace em Paris. “Estamos liberando no ambiente organismos vivos sobre os quais não temos controle.”

O protesto dos ativistas faz sentido em pelo menos um aspecto: o destino do dinheiro aplicado nas pesquisas.

Dos US$ 10 bilhões gastos em laboratórios de nanotecnologia de todo o mundo em 2005, US$ 40 milhões - ou 0,4% - foram empregados na investigação dos seus efeitos colaterais.

Enviar este clipping por Email Imprimir este clipping