
Quem quer ter um bebê?
Aumento do número
de clínicas de Reprodução Assistida faz técnica
se tornar cada vez mais popular.
Por Karla Bernardo
 |
Linha amarela, importante via do Rio de Janeiro , que liga
a zona oeste a zona norte da cidade. Um ônibus metropolitano
traz um anúncio que promete ser a solução
para a angústia de muitas mulheres. Está escrito
" Chegou a sua vez, tenha o seu bebê através
de fertilização in vitro" . Uma foto
de uma bela criança acompanha o cartaz. Uma clínica
de Reprodução Assistida está materializando
o que há muito tempo os especialistas já atestam:
o salto significativo no número de empresas que oferecem
o tratamento. A oferta de clínicas é grande
em função do crescimento da demanda. |
| "
É preciso haver um controle do número
de embriões produzidos : A humanidade
está se afastando de Deus, está
se esquecendo da origem divina do homem "
Jorge Magalhães,
Desembargador |
|
|
Segundo
dados da Rede
Latino-Americana de Reprodução Assistida,
sediada no Chile, funcionam oficialmente na América
Latina 102 clínicas de Reprodução
Assistida, sendo 44 brasileiras. No Brasil, onde se
utilizam técnicas avançadas , o percentual
de sucesso nas tentativas de fertilização
está em torno de 30%, o que equivale dizer
que de cada 100 casais inférteis que se submetem
a técnica , 30 conseguem ter seu bebê.
Este sonho custa em média 12 mil reais (tratamento
completo), e em grande parte do país o serviço
não é oferecido pela rede pública.
|
|
|
A simplicidade do texto do anúncio nos alerta para
uma tentativa de popularização das técnicas
de Reprodução Assistida , o que pode ser bom
do ponto de vista de um maior número de casais conquistarem
o direito de constituir família e pode ser perigoso,
já que nenhuma informação sobre os
graves riscos que envolvem o tratamento é mencionado
no anúncio, que circula o dia inteiro pela cidade
e chega a milhares de pessoas. |
|

A Jurista Maria Cláudia Brauner
|
Segundo
a especialista em Reprodução Assistida, a
advogada gaúcha Maria Cláudia Brauner, o Brasil
não conta com uma legislação que regulamente
as técnicas desenvolvidas nas clínicas de
R A. Atualmente estão tramitando no Congresso Nacional
nove
Projetos de Lei sobre o assunto ." É
preciso ter cuidado.Uma política proibitiva ou restritiva
de reprodução humana tolhe o direito inalienável
das pessoas em ter filhos, viola o direito dos cidadãos
quando os impede de gerar, ou, quando impõe um número
restrito para a prole", afirma .
|
| O
único órgão que conseguiu se posicionar
a respeito do tema é o Conselho Federal de Medicina
, que instituiu a resolução
CFM 1358/92 , de 1992 e é a única
referência no trabalho diário das clínicas
de Reprodução Assistida . Segundo os próprios
médicos, esta norma já está merecendo
revisão .
O
rápido avanço das ciências biomédicas
no campo da genética e da reprodução
leva a uma gama de novas possibilidades e gera também
uma infinidade de novos problemas .Questões como
a possibilidade da fertilização após
a morte do marido, a gestação por substituição
, mais conhecida como barriga de aluguel e o destino final
dos embriões congelados dividem opiniões e
reforçam a necessidade urgente de uma legislação
para regulamentar a Reprodução Assistida no
Brasil.
|
|
Várias visões
para uma única questão
|
| 
Jorge Magalhães,
Desembargador aposentado
|
Para
o Desembargador aposentado e professor de direito
da UFRJ Jorge de Miranda Magalhães , é
importante que o Brasil tenha uma lei abrangente,
que atenda a todos os casos - " O que fica difícil
é prever valores morais e éticos para
o futuro", afirma, explicando que em uma sociedade
moderna o que é valorizado hoje pode não
ter nenhuma importância amanhã "Antigamente,
a criança era discriminada quando era filha
de pais separados.Hoje não tem mais espaço
para este tipo de preconceito, o foco já é
outro.O mesmo pode acontecer com as problemáticas
que envolvem a Reprodução Assistida
", exemplifica . |
|
|
Jorge Magalhães chama a atenção para
o artigo 1597 do Novo Código civil ,no parágrafo
que trata sobre a legitimidade dos filhos . Para ele, uma
nova situação foi criada: Para casais sem
filhos, mas com embriões congelados, é dada
a mulher a possibilidade de engravidar depois da morte do
marido, sendo que o filho deve nascer até 300 dias
após o falecimento. Esta possibilidade muda o rumo
de uma família "Antes, no caso do casal sem
filho, a herança era dividida entre a mulher e os
pais do falecido. Agora, se a mulher quiser se implantar
para não dividir a herança com os sogros pode
fazê-lo. Ela dividirá os bens apenas com o
filho, no futuro", explica .
Não
é só no Brasil que acontecem situações
delicadas envolvendo embriões congelados . Duas mulheres
londrinas , Natallie Evans, de 31 anos e Lorraine Hadley,
de 38 anos estão separadas do marido, mas possuem
embriões congelados. Elas querem engravidar, mesmo
após a separação, mas os maridos alegam
não quererem mais vínculo com elas e por isto
não autorizaram a implantação do embrião
em laboratório. Uma longa batalha jurídica
vai decidir o destino destes embriões. Segundo Jorge
Magalhães, a mesma situação não
aconteceria no Brasil. Aqui elas não seriam impedidas
de fazer a fecundação, ao menos que exista
uma ordem expressa, escrita pelo marido, prevendo a proibição
do uso dos embriões no caso de uma separação.Se
não há nada por escrito, a mulher pode se
implantar e pedir alimentos para o marido ainda no período
da gestação.
Além
dos conflitos de ordem jurídica , surge uma importante
discussão no capo da ética :O que fazer com
os embriões que não foram utilizados e se
encontram congelados? Eles não podem ficar congelados
sem uma previsão de utilização. Segundo
um levantamento feito pelo Movitae-Movimento
em Prol da vida
- já existem cerca de 30 mil embriões congelados
no Brasil. Este número não é confirmado
pelo Ministério da Saúde , que não
conta com uma estatística oficial a respeito . Outros
especialistas citam o número de 50 mil . Na opinião
do desembargador, não importa saber exatamente quantos
embriões estão congelados neste momento e
sim o destino deles " Estes embriões não
podem ser descartados, esta é uma forma de homicídio
" lato sensu" , no sentido de se estar
matando um civil. É preciso haver um controle do
número de embriões produzidos : A humanidade
está se afastando de Deus, está se esquecendo
da origem divina do homem ", afirma.
|
|
Segundo a médica e professora Maria do Carmo Borges
de Souza, que é ginecologista e especialista em Reprodução
Assistida , o problema dos embriões excedentes sempre
vai existir, por que a técnica de Reprodução
Assistida não é uma questão matemática
" existem limitações, como idade da paciente,
sua saúde, o nível de infertilidade, estes
aspectos pesam na hora da tentativa de fertilização.
Não podemos produzir um único embrião,
temos que ter mais possibilidades de ajudar o casal a ter
o seu bebê", explica. Quanto ao tempo que os
embriões podem permanecer congelados , Maria do Carmo
explica que ao contrário do que muitos pensam , uma
vez congelados, os embriões se conservam totalmente,
não havendo perda das suas características.
" Na literatura médica existe o relato de uma
gravidez com sucesso sendo utilizado um embrião que
estava há 7 anos congelado", informa.
|
| 
Maria do Carmo, Médica
| "Não
podemos produzir um único embrião, temos
que ter mais possibilidades de ajudar o casal a ter
o seu bebê. Reprodução Assistida
não é uma questão matemática"
Maria do Carmo Borges,
médica |
|
Para Maria do Carmo Borges , que também é
presidente da Comissão especializada de Fertilização
Assistida da Federação da Sociedade Brasileira
de Obstetrícia e vice presidente da Sociedade Brasileira
de Reprodução Assistida, um dos maiores problemas
é a falta de informação sobre os riscos
do tratamento." Muitas mulheres com a ansiedade de
ver o sonho de ter seu bebê realizado esquecem de
se informar sobre os riscos que vão passar".
Maria do Carmo chama a atenção para um dado
importante: A América Latina está atingindo
um recorde no índice de gestações múltiplas.
Atualmente a taxa está em 30,7%. No caso de gestação
tripla, 6,3%. Esta é uma das complicações
do tratamento, já que gera sérios riscos para
a mãe e para os bebês. Outro caso mais raro,
porém de muita importância é a possibilidade
da mulher adquirir a Síndrome de Hiper estímulo
Ovariano, uma complicação clínica que
ocorre quando a mulher atinge níveis hormonais inesperados,
causando uma instabilidade vascular. Para Maria do Carmo,
a sociedade tem que estar bem informada, ciente dos riscos
e pronta para discutir todas as questões que envolvam
reprodução, principalmente qual destino dar
aos embriões congelados. "Esta é uma
decisão complicada , que cabe apenas ao casal. Eles
podem utilizar, doar para outro casal ou manter os embriões
congelados. Atualmente não existe a possibilidade
de doá-los para pesquisa ou descartá-los.
|
| Na
opinião dos cientistas, manter embriões congelados
indefinidamente é desperdiçar a possibilidade
de avançar em uma importante área : a clonagem
terapêutica . Na opinião da pediatra paulista
, Ana Lúcia Langer, especializada em patologias neuromusculares.
"Se
a morte é definida pelo fim da atividade cerebral,
por que a definição de vida não pode
acompanhar o mesmo raciocínio, tendo como marco zero
o início da atividade do cérebro , que ocorre
apenas a partir do 14º dia após a fecundação?"
esta opinião é compartilhada pelos membros
do Movimento Movitae, composto por pessoas interessadas
na liberação da terapia com célula
tronco embrionárias, que ainda é uma atividade
proibida no Brasil .
Para
Andréia Bezerra de Albuquerque, presidente do Movitae,
a terapia com células tronco embrionárias
tem o potencial de cura de patologias como Alzheimer, diabetes,doenças
cardíacas,distrofias musculares, esclerose lateral
amiotrófica, esclerose múltipla e lesão
medular . "a doação deste material aos
pesquisadores pode significar um futuro às pessoas
que estão morrendo, um exemplo claro é de
uma criança com Distrofia Muscular de Duchenne, uma
doença grave que atinge somente meninos, eles perdem
a capacidade de andar por volta dos 12 anos e de respirar
sozinhos por volta dos 20. São intelectualmente perfeitos
e muitos têm inteligência acima da média.A
terapia com células tronco embrionárias pode
salvar estas vidas.É de extrema importância
que o Congresso Nacional assuma que desconhece
o assunto e não tome medidas proibitivas.
Os congressistas tem de ouvir a comunidade científica,
as famílias e os pacientes", finaliza. |

|
|