
Dúvidas
e Certezas da Era Pós Genoma
O que mudou a partir da conclusão do Projeto Genoma
Humano (PGH)?
Por
Karla Bernardo Montenegro

Estamos
vivendo a era Pós Genoma. Cientistas do mundo todo enfrentam
agora o desafio de compreender a função dos principais
genes catalogados a partir do PGH. Este mês, mais um importante
passo foi dado na corrida para desvendar o complexo Genoma Humano.
O consórcio liderado por Takashi Gojobori, do Instituto
de Ciência Avançada do Japão concluiu uma
análise detalhada de 41.118 conjuntos de moléculas
de DNA complementares (cDNAs), o que permitiu a identificação
de 21.037 genes. O resultado deste trabalho confirmou o que muitos
cientistas moleculares já desconfiavam: grande parte do
DNA não tem função aparente, o que equivale
a dizer que o genoma humano está em evolução
constante.
Na
era "Pós genoma" todos nós precisamos
reavaliar antigos conceitos já enraizados na cultura popular.
Não há espaço, por exemplo, para o chamado
"determinismo neurogenético". Está provado
que é um erro tentar explicar antigos comportamentos pela
genética. Justificar atos violentos, opções
sexuais, ou vícios meramente por considerar que o indivíduo
já nasce com determinada pré-disposição
genética é um dos principais tabus que a era "pós
genoma" vem derrubar.
O
completo entendimento do Genoma Humano - a seqüência
de proteínas presentes no DNA que é responsável
pela formação e funcionamento do corpo humano -
busca principalmente conhecer a base genética das doenças
para que as novas tecnologias da biologia molecular possam livrar
o homem de males em potencial e vários outros fatores limitantes,
porém, como a maioria das doenças comuns ao ser
humano dependem da interação complexa de muitos
genes com o ambiente, ainda há muito trabalho para ser
desenvolvido a partir das informações descritas
pelo PGH.
A
rápida conclusão do PGH (a previsão de término
era 2005, mas em 2003 todo o trabalho foi oficialmente finalizado)
vem de encontro com o acelerado progresso científico dos
últimos anos na área da biologia molecular. Em pouco
tempo, a tecnologia foi incorporada ao dia-a-dia dos biólogos
e através de métodos estatísticos e eficazes
programas de computador (bioinformática) é possível
a análise de uma quantidade cada vez maior de material
biológico:
Para
o pesquisador adjunto do laboratório de Hanseníase
do Departamento de Medicina Tropical do Instituto Oswaldo Cruz,
Milton Moraes, existe uma questão paradoxal nesta evolução:
"Se por um lado, com o avanço da genética,
biologia molecular e bioinformática, as pesquisas evoluíram
e hoje os pesquisadores podem observar milhares de seqüências
de DNA simultaneamente, cerca de 50 mil sequências ao mesmo
tempo, por outro, com a certeza de que as seqüências
são variáveis o que observamos é a volta
do "olhar reducionista",ou seja, embora tenhamos ferramentas
para estudar 50 mil diferentes sequências, quando vamos
analisá-las olhamos para dezenas no máximo. Obrigatoriamente
o pesquisador vai ter que olhar para um grupo selecionado de genes
para entender o seu "complexo liga e desliga" e saber
o que leva ao desenvolvimento daquele organismo. É fundamental
entender como é regulado o interruptor molecular para saber
em que momentos faz-se com que um gen seja expresso, quando a
proteína é produzida e em que momentos ele regula
negativamente a expressão daquele gene, significando que
a proteína em questão não vai ser produzida,
analisa .
O
pesquisador Milton Moraes em seu laboratório na Fiocruz
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Segundo
o pesquisador e também autor do livro "Biologia
Molecular na prática médica e biológica",
os laboratórios públicos e privados estão
buscando profissionais com uma visão multidisciplinar
"Estamos vivendo um momento onde é preciso trabalhar
com generalistas e não especialistas. O profissional
que trabalha na área de genômica tem que ter
informações básicas não apenas
de biologia, matemática ou química, a formação
tem que ser transversal a todas estas disciplinas na tentativa
de capturar mais informações, afirma.
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Para
ele, a principal consequência do Projeto Genoma Humano foi
o entendimento da variabilidade que existe entre os indivíduos."
Mesmo com 0,1% de diferenças entre dois indivíduos,
esta pequena variação é que faz com que nós
tenhamos estatura, massa corporal diferentes. Para exemplificar
o impacto limitado sobre a descobertas dos genes em relação
à diagnóstico/cura podemos citar o que ocorre com
uma das doenças genéticas mais estudadas: a fibrose
cística. Ela teve o seu genoma isolado no início
da década de 80 e até hoje não se tem uma
cura definitiva", exemplifica, afirmando que o genoma não
é responsável por identificar todas as doenças
e a cura para todos os males .
O
conhecimento gerado a partir do PGH já começa a
modificar a maneira com que se trabalha a medicina no mundo. Testes
de DNA já fazem parte do dia-a-dia dos consultórios
e os países já estão discutindo e se posicionado
a respeito das pesquisas envolvendo terapias genéticas.
A farmacogenômica (uso das informações genômicas
de um indivíduo para a produção de medicamento
sob medida) já é realidade nos países mais
desenvolvidos.Os alimentos transgênicos (geneticamente modificados)
há muito já invadiram as prateleiras dos supermercados,
a biotecnologia avança a passos largos.
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No passado, o preço de custo de uma análise
genética simples era cerca de quinze dólares.
Hoje custa trinta centavos de dólar. Acredito que
no Brasil não vai demorar muito para que aumentem
os pedidos de testes genéticos, com a finalidade
de se prevenir e combater doenças, destaca o pesquisador.
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Em
relação aos alimentos geneticamente modificados,
os transgênicos, Milton opina: "Produto transgênico,
em teoria é um avanço. Deixando de lado o olhar
da questão sob o ponto-de-vista da ética, da política
e do meio ambiente, da mesma maneira que se tem a produção
da insulina a partir de técnicas de DNA recombinante, por
que não obter uma batata mais resistente e geneticamente
modificada? É claro que é fundamental que rigorosos
testes sejam feitos, o produto precisa ser aprovado e rotulado,
afinal, todos devem poder optar por querer ou não consumir
um produto transgênico ."
Outra
questão sempre polêmica é a possibilidade
do patenteamento de genes humanos. Países como os Estados
Unidos permitem que os genes sejam patenteados como seqüências.
A França proibiu tal prática. No Brasil, a Lei de
Propriedade Industrial também proíbe o patenteamento
do todo ou parte de seres vivos naturais e materiais biológicos
encontrados na natureza, inclusive genoma ou germoplasma. Para
Milton Moraes "Não se deve impedir o patenteamento
de produtos desenvolvidos a partir de tecnologias que envolvem
o DNA. Neste caso, não se está patenteando o gene
e sim o resultado do processo de produção de um
medicamento, pondera.
Tecnologia genômica no Brasil
O
marco para o início da inclusão do Brasil no âmbito
dos países que detêm a tecnologia genômica
foi em 1997 com projeto desenvolvido pela Fapesp através
de um consórcio de universidades. Foi montado o genoma
da bactéria Xylela fastidiosa, cuja conclusão se
deu no ano de 2000 (aeg.lbi.ic.unicamp.Br/xf .)
A
Fundação Ataulpho de Paiva (FAP) e a Fiocruz lançaram
o projeto Genoma do BCG Moreau-RJ, que fará o seqüenciamento
dos genes da cepa da vacina contra tuberculose aplicada no Brasil.
A iniciativa permitirá a melhoria da eficácia, diminuição
dos efeitos colaterais e ampliação do controle de
qualidade na produção da vacina utilizada no combate
à doença que infecta anualmente cem mil pessoas
no país. Orçado em R$ 500 mil, o projeto será
concluído até março de 2005.
