
"Fui chamada até de assassina"
Depoimento de mulher que tentou na justiça autorização
para interrupção de gravidez.
Por
Karla Bernardo Montenegro

Thiany
Lima Alves da Penha , de 19 anos, balconista, tinha 18 quando
estava grávida de Luísa. Aos 4 meses de gestação,
Thiany descobriu que esperava um bebê anencéfalo.
Ela já é mãe de uma menina de 2 anos, Maria
Júlia, que não caminha e tem hidrocefalia.
"Quando
o médico me falou da anencefalia, fiquei assustada já
que me explicaram que o bebê não viveria após
o parto. Eu jamais me recusaria a ter um filho com cuidados especiais,
prova viva é a minha filha Maria Júlia. No caso
da Luísa, não havia esperança de vida, por
isso é que eu procurei a justiça para solicitar
interrupção da gravidez", relata.
Desde
que decidiu optar pela interrupção da gravidez,
Thiany passou por todo o tipo de reprovação na cidade
onde mora, Teresópolis, região serrana do Rio de
Janeiro. "Na rua as pessoas me chamavam de assassina. A igreja
de Teresópolis vivia atrás de mim para me falar
sobre pecado. Comecei a ter problemas com a gravidez. Meu medo
foi aumentando. No meu primeiro parto tive eclampsia (pressão
alta na gestação) e fiquei dois dias em coma. Me
tornei uma gestante de risco, mas perante a justiça, não
havia como provar" .
Thiane
entrou com pedido de interrupção da gravidez na
Defensoria Pública de Teresópolis . O juiz local
negou em primeira instância, alegando inexistência
de amparo legal para o pedido. A promotora da Defensoria Pública
de Teresópolis que cuidava do caso, Soraya Tavera, levou
o caso ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que levou
2 meses para apreciar o processo. Quando todos aguardavam a decisão,
o juiz Eduardo Mayr declinou e deixou de decidir sobre o mérito
da questão alegando que já que se passara os nove
meses de gestação.
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Luísa
(bebê anencéfalo) morreu no ventre da mãe,
que teve descolamento de placenta aos 9 meses de gravidez.
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foto da Luísa
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"Eu
gostaria de saber se o jurista que negou o meu pedido teria a
mesma postura se a mulher dele estivesse passando pelo que passei.
Os médicos sabiam do meu risco de morte, mas pediam sempre
mais uma semana para ver se eu piorava.Ees estavam aguardando
a minha morte já que alegavam não ter como documentar
o meu risco. Graças a Deus eu e minha filha superamos todas
as dificuldade, mas até o nosso único encontro foi
complicado já que só a vi dentro do caixão.
Não desejo isto para ninguém", desabafa.
