
Bioeticista
defende a legitimidade da interrupção da gravidez
em caso de anencefalia
Por
Karla Bernardo Montenegro

Dilemas
morais inevitavelmente causados a partir da certeza do diagnóstico
de gravidez de feto anencéfalo levam a sociedade a refletir
sobre a moralidade da interrupção da gravidez nesta
circunstância. Para o bioeticista Fermin Roland Schramm
da Escola Nacional de saúde Pública (ENSP), a interrupção
da gravidez é justificável e possui amparo filosófico
que a legitima.
-Via
de regra ninguém faz aborto como se troca um sapato. É
sempre algo complicado e problemático para a mulher e para
o casal. Mas, não admitir o aborto significa obrigar uma
pessoa a levar adiante uma relação que ela não
aceita. De fato, quando a mulher engravida, podem acontecer duas
coisas. Pode começar a estabelecer uma relação
com o outro que está dentro dela ou pode não aceitar
esta relação. Se a aceitar, a relação
vai se aprofundando e, desta maneira o outro que está dentro
dela se torna um tu. No caso de um anencéfalo, esta relação
não se concretiza por que este outro é ausente e
a fortiori o tu. É neste ponto que a interrupção
da gravidez se justifica. Para evitar traumas em alguém
que vai continuar a viver (a mulher) considero que o interesse
da gestante tem prioridade sobre um potencial interesse do feto
anencéfalo visto que o interesse deste nunca será
um interesse atualizado porque certamente vai morrer. Portanto,
esta é uma situação clara de conflito entre
um suposto interesse potencial do anencéfalo em sobreviver
e o interesse atual da gestante, a qual não precisa passar
pelo calvário de gerar um anencéfalo (salvo no caso
de ser uma escolha dela),destaca Fermin.
|
Na
opinião de Schramm não é só
em caso de anencefalia que o interesse da gestante deve
ter prioridade sobre o interesse do feto: " A mulher
não é obrigada a aceitar dentro de si um ser
que ela não quer, mesmo que a gravidez esteja em
estágio avançado", afirma, concordando
que esta é uma opinião bastante polêmica.
|
|
Para
o bioeticista, o termo aborto está hiper conotado "
Há muito preconceito atrás desta palavra. Se o aborto
é uma palavra rejeitada, muitos utilizam o termo-interrupção
da gravidez-" Para Schramm, a igreja tem razão quando
considera este termo um eufemismo "Muitas vezes questões
importantes são mal percebidas por que as palavras foram
mal utilizadas", afirma, explicando que "Um dos principais
papéis da filosofia desde a filosofia analítica
é esclarecer conceitos, e o conceito da palavra aborto
é claro, não deixa dúvidas, não há
por que criar novas palavras".
Enquanto
no Brasil a igreja continua assumindo o papel de opositora intransigente
a qualquer forma de interrupção da gravidez , por
outro lado, os médicos conseguiram um importante avanço
na medicina fetal e atualmente conseguem detectar a anencefalia
nos primeiros meses de gravidez. Como o Brasil ainda não
adequou a legislação (permitindo a interrupção
da gravidez no caso de malformação), os médicos
nada podem oferecer como alternativa a este diagnóstico.
Diante desta realidade, é fácil entender porque
o país ocupa o quarto lugar no "Mapa da anencefalia",
documento lançado pela Organização Mundial
de Saúde (OMS) e publicado no World Atlas of Birth Defects
que fez um levantamento entre 41 países do mundo e registrou
os locais que mais apresentam registro de nascidos com anencefalia.
Para
o bioeticista Fermin Roland Schramm, a igreja deve defender as
suas posições, ser coerente com a sua doutrina mas
nunca invadir a esfera das instituições " Vivemos
em um estado republicano, onde existe a separação
entre o Estado e a igreja. A religião é uma questão
privada ,que deve ser respeitada , mas o Estado tem que ser laico,
secular para poder decidir sobre as questões que envolvem
a sociedade, conclui.
