
Material
Genético:Qual a melhor política para o Brasil?
Oficina
do Projeto Ghente sobre a Regulamentação do Acesso,
Uso e Remessa do Material Genético Humano reúne
especialistas de todo o país nas diversas áreas
do conhecimento.
Por
Karla Bernardo Montenegro
Veja
também a apresentação de Juan Llerena, Adriana
Diaféria, Geni Lima e Fernado Vargas

Médicos,
juristas, biólogos, gestores, equipe do Projeto Ghente
e integrantes do Ministério da Saúde se reuniram
na residência oficial da Fundação Oswaldo
Cruz - FIOCRUZ - para discutir as implicações sociais,
éticas, jurídicas sobre Acesso, Uso e Remessa de
Material Genético Humano e uma possível regulamentação
sobre o tema. A socióloga Maria Celeste Emerick, coordenadora
de Gestão Tecnológica da FIOCRUZ e Coordenadora
Geral do Projeto Ghente mediou o debate e declarou "Este
encontro foi muito valioso já que reuniu a opinião
de especialistas das mais diferentes áreas do conhecimento
em torno de uma questão fundamental para todos nós.
O Projeto Ghente pretende organizar as palestras proferidas e
comentários da oficina e publicar seu resultado",
informou.
O
diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério
da Saúde, Reinaldo Guimarães, participou da Oficina
de Trabalho e apresentou o mapeamento do atual cenário
da política de C&T no Brasil ;"Estamos em um momento
de conjugação entre os interesses científicos
e as políticas públicas.Neste ano de 2004 o orçamento
disponível para ser investido aumentou de 13 para 70 milhões
de reais, sendo que a maioria desta verba será destinada
à pesquisa", informou .
Quando
perguntado em quais linhas de pesquisa o Ministério irá
atuar, Reinaldo respondeu que será respeitada uma agenda
nacional de prioridades em pesquisa na área da saúde,
que será definida na II Conferência de Inovação
e Pesquisa em C&T a ser realizada este ano em Brasília.
Entre
os palestrantes convidados, o médico geneticista e Professor
titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Sérgio
Danilo Pena defendeu a prática da pesquisa genética
no Brasil. "Ainda existem no país muitos "anticorpos"
contra a prática da pesquisa genética.Um exemplo
é a deficiência na regulamentação desta
matéria .Na norma do CONEP por exemplo, é recomendado
que sejam explicitados os exames e testes que serão realizados
e a descrição dos genes,segmentos do DNA e RNA que
serão estudados. Esta prática está na contramão
de toda a orientação internacional em termos Bioéticos.De
uma forma geral, a maioria dos países do mundo consideram
fundamental garantir o anonimato das amostras utilizadas para
pesquisa", afirma, o que concorda o médico especializado
em genética clínica, Juan Llerena , do Instituto
Fernandes Figueira(IFF/RJ).
De
acordo com Sérgio Pena, o trabalho que envolve pesquisa
genética tem também importância social. "Realizamos
uma grande pesquisa de natureza genética/genômica
entre a população ameríndia .Uma das conseqüências
da pesquisa foi o aumento da auto-estima daquele povo. Depois
do trabalho concluído, observamos o aumento significativo
do número de pessoas que se declararam ameríndias
para o censo do IBGE",afirma.
A jurista Adriana Diaféria,(SP) chamou a atenção
para o fato de o Novo Código Civil não abordar o
tema Acesso e Uso de material genético humano. "Temos
que identificar o universo, o tamanho dos problemas envolvidos
com estas pesquisas para a partir daí poder regulamentar.
Devemos definir um modelo federal para a matéria ",
afirma. Segundo Adriana, é importante também identificar
o forte potencial econômico e social que há por trás
do conhecimento das informações genéticas
humanas.
Já
o jurista e Vice Diretor da Faculdade de Direito da Universidade
Federal do Paraná José Antônio Gediel, (PR)
apresentou o tema "Direitos humanos, genética e Relações
Internacionais". Gediel destacou que "A racionalidade
científica que desconhece ,ou necessita desconhecer, os
limites para avançar, deixam os direitos humanos como um
obstáculo, pois, colocam a dignidade humana e suas exigências
como limites a serem tomados por base em qualquer regulação
jurídica, nacional ou internacional,"reflete
Eliane
Moreira, advogada e professora de Direito Ambiental do Centro
Universitário do Pará (CESUPA - PA) destacou a necessidade
de proteger o indivíduo do mau uso da informação
genética humana " Quais são os limites que
devem existir? Quem pode ter acesso a estas informações
genéticas? Temos que fazer uma releitura dos direitos individuais
de primeira geração que se referem à dignidade
humana e ao direito à vida humana", afirma, o que
concordou a médica Helena Pimentel, da Secretaria de Atenção
á Saúde (Ministério da Saúde) "Trabalho
com genoma humano, triagem neonatal, um banco maravilhoso. Mas,
caso se consiga conhecer uma população no que se
refere a um risco de alguma doença, por exemplo, as seguradoras,
ao descobrirem isso, fazem como as companhias de seguro de carro;
o seguro é mais caro porque o carro é visado. Então,
aquela população ficará mais visada; não
como indivíduos, como população mesmo e passarão
a ter que se submeter a seguros diferenciados",reflete.
No
que se refere à necessidade de um regime internacional,
Eliane afirma que é preciso captar consensos." É
urgente definir em que foro este tema será tratado. Não
acredito que a UNESCO seja o melhor foro, considero que há
uma fragilidade desses instrumentos," declarou, o que pondera
o médico Sérgio Rego,FIOCRUZ,RJ " Concordo
com a fragilidade da UNESCO, mas é importante afirmar que
são os pactos internacionais que temos. Se antes a UNESCO
não contava com a presença norte-americana, eles
agora voltaram para lá. Quem sabe podem voltar a respeitar
algum fórum internacional?",indaga.
Margareth
Maia da Rocha, do Instituto Nacional de Propriedade Intelectual
(INPI, RJ) , chamou a atenção para o fato de que
todos os dias novas pesquisas estão sendo desenvolvidas
na área de biotecnologia e enquanto não se tem uma
orientação jurídica definida os inventos
estão surgindo e independentemente desta discussão
os pedidos de patente estão sendo depositados " Temos
que saber exatamente que tipo de regulamentação
pretendemos internamente, para não ocorrer no futuro, uma
nulidade de patente que tenha sido indevidamente concedida, não
por questões técnicas, mas por questões de
definição jurídica dentro do país",
adverte.
Silvio
Valle, pesquisador e Coordenador dos cursos de Biossegurança
da FIOCRUZ, RJ, destacou a importância de se estabelecer
um glossário de termos científicos para melhorar
a compreensão entre cientistas, juristas e os demais profissionais
envolvidos na discussão. "Se não estabelecermos
um glossário regulamentar, fica difícil a comunicação",
pondera. Outra preocupação de Sílvio é
com a transparência de interesses.

Já
Geni Lima Câmara, da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA, BR) falou sobre a atual limitação
de atuação da Vigilância Sanitária
no caso de Uso e Remessa de Material Genético Humano "
Estamos vivendo uma situação difícil. Estamos
dando autorização para exportação
de sangue de cordão umbilical para ser crio-preservado
no exterior.Esta é uma situação concreta.
Autorizamos com base na legislação atual em função
do indicativo da procuradoria jurídica da ANVISA.Batemos
de frente com o direito individual, afinal, são células
de um filho. Os pais têm direito de considerar que o país
não oferece segurança para manter essas células
armazenadas por 20 anos? Esse é um exemplo de uma questão
delicada a ser regulamentada. Na opinião da especialista,
além das situações concretas, é fundamental
considerar também as situações emergentes
que são muitas: reprodução assistida, banco
de sangue, de cordão umbilical, de célula, de tecido,
de dente, de membrana amniótica etc.", declarou.
O
médico Juan Llerena, do Departamento de Genética
Clínica do Instituto Fernandes Figueira da FIOCRUZ, RJ
situou a questão da genética médica na discussão
sobre a necessidade de regulamentação do acesso
e uso de material genético. "Existe a necessidade
de se criar normas, nem que sejam operacionais e particulares
para determinados serviços. O perigo é deixar cada
um decidir por si, elevando a possibilidade de haver erros no
que se refere ao uso do material genético", afirmou.
O
médico Fernando Vargas, do Instituto Nacional do Câncer
(INCa,RJ) fez uma exposição sobre o trabalho do
INCA com aconselhamento genético do câncer hereditário
. O médico sugeriu que sejam feitos treinamentos de profissionais
de saúde em níveis primário ou secundário
para identificar pacientes ou famílias em risco; criação
e expansão de serviços de oncogenética, como
o INCA tem há 4 anos e o estabelecimento de uma rede de
serviços " Uma mesma instituição não
pode fazer teste para uma coleção de doenças
genéticas. É mais sensato que haja uma rede de diferentes
instituições que testem diferentes doenças.
É importante estabelecer também uma rede de serviços
em nível terciário para fazer rastreamento molecular
em famílias previamente selecionadas",sugeriu.
Helena
Pimentel, da Secretaria de Atenção à Saúde
- SAS/MS destacou que a principal função da SAS
é fazer as políticas públicas de saúde
e dentro deste contexto citou a pouca ação do Ministério
da Saúde no que se refere a genética "O Ministério
da Saúde nunca se debruçou sobre a genética
como uma especialidade médica, como uma especialidade que
precisava ter uma política de saúde adequada",adverte.
O
médico Sérgio Rego da FIOCRUZ, RJ, membro da Comissão
de Bioética do Cremerj (Conselho Regional de Medicina do
Rio de Janeiro) e diretor da Sociedade de Bioética do Rio
de Janeiro, falou sobre as reflexões éticas na perspectiva
de uma regulamentação sobre o Acesso e Uso e Remessa
do Material Genético Humano: " Sou a favor de uma
regulamentação para pesquisa. Os indivíduos
devem ser respeitados, devem concordar em participar de uma pesquisa
e saber o destino que será dado. Quando se vai trabalhar
com uma pesquisa populacional, acho que temos que começar
a questionar a necessidade de a autonomia individual ter o destaque
que deve. Minha tendência pessoal é considerar que
se deva trabalhar para pesquisas populacionais com a idéia
do consentimento amplo", afirmou. Para Sérgio, o único
caso em que não se deve pensar em regulamentação
é no que se refere a ética "A regulamentação
ética não deve ser feita por lei. As leis demoram
tanto tempo para serem elaboradas e atualizadas que, se pensarmos
numa regulamentação ética, que é uma
expressão de um processo extremamente dinâmico da
sociedade, inevitavelmente criaremos coisas que serão desrespeitadas.
Talvez se deva ter um diploma legal para que as diretrizes éticas
sejam respeitadas", sugere.
No
final das palestras a jurista Maria Claudia Brauner (UNISINOS)
fez um breve resumo da importância de se reunir especialistas
das diferentes áreas do conhecimento para uma discussão
sobre a necessidade de regulamentação sobre material
genético humano no país. "Através deste
debate podemos refletir acerca da maneira correta de estabelecer,
de forma mais eficiente e pontual, uma política nacional
sólida sobre o acesso ao material genético humano,
relevando todos os interesses e principalmente os interesses sociais.
Sem dúvida, não será uma lei que resolverá
todo o problema do Brasil e isso ficou muito claro, dada as peculiaridades
do tema, os avanços biotecnológicos e a insuficiência
do Direito. Sabemos que este não é o caminho. Antes
de um projeto de lei, devemos aproveitar oportunidades de debate
como esta, que passa pelos Ministérios da Saúde
e da Ciência e Tecnologia e torna-se pauta do Projeto Ghente,
onde sempre acontecem trocas de experiências sempre tão
ricas e interessantes e que devem ser canalizadas",conclui.
Clique
nas fotos para ver algumas das apresentações

