
Bioética
de A a Z
V Congresso Brasileiro de Bioética discute sob várias
óticas um novo estatuto para vida humana no século
XXI.
Por
Karla Bernardo Montenegro
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O
V Congresso Brasileiro de Bioética, realizado este
ano em Recife, aconteceu em clima de comemoração.
O diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia
da Secretaria de Ciência e Tecnologia e de Insumos
estratégicos do Ministério da Saúde,
Reinaldo Guimarães, anunciou na abertura do Congresso
que cerca de cinco milhões de reais serão
destinados à capacitação dos 400 centros
de ética e pesquisa espalhados pelo País.
Outra boa notícia é a promessa da Implantação
do Sistema Nacional de Informações sobre Ética
em Pesquisa envolvendo Seres Humanos, o SISPEN.
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Foram
três dias de Congresso, de 13 a 15 de maio, em um esforço
multidisciplinar para a discussão da Bioética sob
diversas óticas, iniciando com a sua história, passando
pelas relações humanas em saúde, ética
em pesquisa, implicações das modernas biotecnologias
até chegar a temas instigantes e atuais como a vulnerabilidade
da vida humana.

Apresentação
de Mª. Helena Lino, gerente do Projeto Ghente e de Adriana
Diaféria, jurista e colaboradora do Projeto.
O
Projeto Ghente apresentou trabalho na Sessão Temas Livres
sob o título: "Utilização
de células-tronco embrionárias e os princípios
da responsabilidade e da solidariedade", onde a advogada
Maria Helena Lino representando as demais autoras do texto, as
advogadas Adriana Diaféria e Micheli Meneguelli e a socióloga
Maria Celeste Emerick, convocou o público a analisar as
justificativas éticas-sociais que amparam o transplante
de órgãos a partir da detecção de
morte cerebral a fim de compará-lo à utilização
de células-tronco embrionárias para tratamentos
terapêuticos." O conceito biológico, jurídico
ou filosófico do início e do fim da vida não
é capaz de atender ao anseio humano à proteção
da vida, mas, provavelmente será alcançável
a partir do determinismo social daquilo que seja viável,
aceitável e moralmente justo.", afirmou Maria Helena
Lino em sua exposição.
Os
conselheiros do Projeto Ghente, o médico sanitarista e
editor da Revista Brasileira de Educação Médica,
Sérgio Rego, o filósofo e Presidente da Sociedade
de Bioética do Rio de Janeiro, Fermin Roland, a psiquiatra
e Diretora Executiva da Sociedade de Bioética do Rio de
Janeiro, Marlene Braz e o médico e Coordenador do Comitê
de Ética em Pesquisa da FIOCRUZ, José Luiz Telles
participaram ativamente do Congresso. Sérgio Rego ministrou
oficinas de trabalho pré-congresso e a palestra "Limites
da autonomia na prática clínica" onde abordou
aspectos conceituais do princípio da autonomia no campo
da Bioética desde a autonomia profissional até a
autonomia do indivíduo. Sérgio também lançou
o livro "A formação ética dos médicos"
que trata dos valores sócio-morais do quotidiano da prática
médica.
Já
a psiquiatra Marlene Braz apresentou o tema Estado & Vulnerabilidade.
Aspectos sociais da Bioética foram discutidos com o mesmo
peso de assuntos tradicionais, como os da biotecnologia. Em sua
apresentação Marlene falou sobre "O
papel do Estado na proteção aos vulneráveis".
Como exemplo, citou a situação atual do Estado do
Rio de Janeiro, onde se estuda a possibilidade de cercar a maior
favela da América Latina, separando fisicamente ricos e
pobres, enquanto a população convive diariamente
com tropas do exército fazendo o trabalho de polícia
para conter a violência. Para Marlene Braz "A Justiça
deve ter um papel de inclusão frente às leis jurídicas
e econômicas que desumanizam. A Lei deve estar a serviço
da vida e não o contrário", afirma. O filósofo
Fermin Roland abordou o tema "Ética e Biosfera: desafios
rumo ao futuro" e o médico José Luis Telles,
entre outros trabalhos, apresentou "Ética em Pesquisa:
Para além das análises protocolares" e "A
experiência do Comitê de Ética em Pesquisa
da FIOCRUZ"
Entre
os conferencistas, o médico William Saad Hossne apresentou
um importante panorama da Bioética em pesquisa que envolve
seres humanos . William traçou uma "linha do tempo",
onde o ponto de partida foi o lançamento do primeiro documento
específico sobre ética em pesquisa, o Código
de Nuremberg em 1947. O conferencista explicou que este código
foi criado em vista de experimentações médicas
abusivas cometidas nos campos de concentração. Este
foi o norte para se pensar em como conduzir a pesquisa de forma
eticamente adequada no mundo. Na década de 60 surgiu a
Declaração
de Helsinki, elaborada pela Associação Médica
Mundial. Esta declaração sofreu muitas revisões
com o objetivo de se tornar um documento não só
teórico, mas também operacional no que se refere
a pesquisa com seres humanos. Recentemente surgiu um terceiro
documento, desta vez elaborado pelos conselhos científicos
das sociedades médicas e pela Organização
Mundial de Saúde. Este documento, chamado Diretrizes
Internacionais, reforçou os termos da Declaração
de Helsinque e estabeleceu novas regras para guiar o trabalho
de pesquisa. Na opinião de William, este documento não
conseguiu atingir seu objetivo já que deixou espaços
de penumbra e de flexibilização capazes de enfraquecer
as diretrizes propostas no texto. Para ele, o Brasil através
da Resolução
196/96 do Conselho Nacional de Saúde foi o país
que melhor conseguiu adaptar as idéias propostas no Código
de Nuremberg para a realidade do país. " É
uma peça de natureza verdadeiramente Bioética, desde
a sua gênese, conteúdo conceitual até a sua
operacionalização, e principalmente constitui um
verdadeiro sistema de controle social", analisa.
Dentre
os debates surgidos no V Congresso brasileiro de Bioética,
teve destaque a mesa redonda sobre as relações entre
Ciência & Religiões. Representantes de três
linhas religiosas debatiam de que maneira as religiões
contribuíam para o equilíbrio social em relação
ao avanço científico. Em determinado instante, um
pastor que estava na platéia e que se identificou apenas
como sendo representante da igreja evangélica defendeu
que "A Bíblia não condena a Ciência,
e que a Igreja, portanto, não deve ser contra as pesquisas
e o avanço científico. Para Deus a vida humana é
a coroa de sua criação, portanto, objeto de extrema
relevância. Dessa forma a Ciência precisa avançar
para descobrir a cura para todas as doenças, a fim de preservar
a vida de cada vez mais indivíduos". O pastor ainda
destacou que "É preciso ter cuidado para que o saber
não passe por cima da vida", se referindo a abusos
inaceitáveis envolvendo pesquisas com seres humanos.
Este
ano o Congresso registrou um aumento significativo de jovens participantes.
Este é um favorável indicativo de que cada vez mais
a Bioética passa a fazer parte das discussões de
toda sociedade, não ficando restrita a grupos segmentados.
Veja
artigo Utilização de Células-Tronco Embrionárias
e os Princípios da Responsabilidade e da Solidariedade.
