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A
determinação do código genético completo de um organismo é
uma meta que enfeitiçou a produção científica desde há muito
tempo, pois esperava-se desvendar as chaves para os segredos
da "Vida". Não só iríamos conhecer o conjunto mínimo de genes
para constituir um organismo, admirar as vias metabólicas
básicas, mas também saber o que faz um patógeno e através
de genômica comparativa, descobrir como diferentes organismos
lidam com o ambiente exterior e, conhecer organismos mais
complexos como o ser humano.
No final dos anos 80, planos audaciosos foram feitos para
começar a analisar de forma sistemática o genoma humano, com
o desenvolvimento de seqüenciamento automatizado. Em 1990
é iniciado o Projeto Genoma Humano e hoje em dia, dificilmente,
um cientista negará o impacto revolucionário deste empreendimento
no campo simbólico e material, no poder de intervenção e na
reflexão dos limites da liberdade e autonomia das ciências.
Com o aperfeiçoamento das tecnologias, a velocidade
de execução destes projetos tem melhorado muito mais rapidamente
do que previsto, reduzindo o custo do seqüenciamento. Os resultados
destes investimentos e suas aplicações ainda são mais expectativas
do que realizações.
A fase inicial de seqüenciamento do genoma humano está terminada
e a expectativa para o desenvolvimento de aplicações está
sendo calorosamente discutida no campo do diagnóstico e da
terapêutica (Burke et al, 1997). Este processo vem acarretando
também debates vigorosos sobre os direitos de propriedade
da informação científica e sobre as implicações éticas do
projeto e suas aplicações e exigindo discussões sérias, dialogais
e normativas entre os sujeitos das diferentes ciências.
É importante observar que o projeto genoma (humano
ou de outro organismo) continuará muito além da fase de seqüenciamento,
prosseguindo na investigação sobre a relação entre a estrutura
e a função de proteínas, para o qual o projeto de levedura
(Saccharomices cerevisiae) traça o caminho. Também já estão
em andamento, entre outros, o estudo da diversidade e migração
humana e da evolução das espécies, o estudo do desenvolvimento
de doenças (por exemplo no projeto genoma de câncer), e do
mapeamento de genética humana e de alterações genéticas e
mutações.
Reflexões éticas - que abrangem as relações dos humanos entre
si e destes com o meio - a visão ecológica do desenvolvimento
científico e o questionamento das bases jurídicas para a aplicação
de tais conhecimentos parecem ser o maior desafio para as
ciências humanas pois, devem alterar a construção do saber.
Como exposto acima, a biologia celular e molecular,
a genética, a bioinformática e mesmo a medicina laboratorial
tiveram uma evolução tecnológica e um aumento exponencial
da quantidade de informação nos últimos anos, em uma escala
de difícil compreensão não somente para leigos, como também
para especialistas. Pois consensos éticos e científicos estão
em permanente processo de construção, no que diz respeito
a essas descobertas mais recentes. Além disto, uma parte dessas
iniciativas e desse conhecimento estão associados à iniciativa
privada colocando questões relevantes no que diz respeito
ao desafio e limite das políticas públicas e da participação
social.
A
produção científica e tecnológica vem rompendo com dogmas
científicos (reprodução a partir de células somáticas), éticos
(reprodução de gêmeos - clonagem para reprodução de humanos;
manipulação, congelamento e descartabilidade de embriões)
e revitalizam a velha questão filosófica - o que é a vida?
A partir do conhecimento de que há uma modo complexo de interação
entre diferentes formas de vida no sistema ecológico, sabe-se
que deste delicado equilíbrio/desequilíbrio depende a sobrevivência
das espécies:
[ ] : "...assim como a adição de um único grão
a um grande monte de areia pode desencadear avalanches nos
lados, uma mudança na aptidão de uma espécie pode causar uma
alteração repentina na aptidão de todas as outras espécies
no ecossistema, o que pode culminar numa avalanche de extinções.
Estamos todos juntos, no mesmo jogo, fazendo marolas no sistema
que criamos mutuamente"
(Horgan,
1998: 171).
Consideramos
essencial acompanhar a produção da informação e de bancos
de dados sobre genomas e suas as aplicações na área da saúde
de forma a transformar informação em reflexão e orientação
para ações públicas e privadas, de âmbito local e global.
Nesse sentido estaremos participando da discussão proposta
pela OMS no sentido de definir um "Plano de trabalho para
implicações éticas, legais e sociais |