A MORALIDADE DOS ATOS CIENTÍFICOS

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O QUE É SER HUMANO?
Olinto A. Pegoraro

I – INTRODUÇÃO

Esta pergunta sempre formou um capítulo central das teorias filosóficas. Ela foi elaborada pelos gregos à luz da questão do cosmos, pelos medievais à luz de Deus Criador, pelos modernos à luz da Ciência e hoje esta questão se coloca à luz dos atos tecnocientíficos. Cada vez mais a ciência aliada à técnica, intervém diretamente na estrutura radical do ser humano, tentando definí-lo cientificamente. De um ponto de vista tecnocientífico podemos dizer que o homem é seu genoma. É uma definição muito perto de ser cientificamente exata: o homem é a totalidade de seus gens mapeados e conhecidos em suas funções. Seria o homem somente isto? Deixou o homem de ser uma questão ontológica e teológica para reduzir-se a um desafio biológico? Que diz a ética? A definição científica e laboratorial do homem parece bater de frente com a meta física, a psicologia e a ética. Este conflito, de fato, revela nossa ignorância sobre nós mesmos. Max Scheller já dizia no início do século: "Na história de mais de 10.000 anos, pela primeira vez o Homem tornou-se problemático para si mesmo. O Homem não sabe mais quem ele é e se dá conta de não sabê-lo". Já não temos do Homem uma definição global e de aceitação universal como na Grécia e na Idade Média; mais gravemente, não sabemos definir o que é o ser humano embrionário ou fetal e o ser humano adulto em estado de inconsciência irreversível.

Por outro lado, já podemos manipular nossa estrutura genética a ponto de construir-nos num laboratório. Aqui a pergunta "o que é 0 ser humano?" pode ser substituída por esta outra: "o que queremos fazer de nós mesmos? ". A primeira pergunta é ontológica e a segunda tecnocientífica. À primeira vista, estas duas perguntas, são mutuamente excludentes. A resposta ontológica é muito abrangente e vaga e a resposta biológica parece excessivamente pontual. Fazemos aqui uma terceira pergunta, seria possível reconciliar as duas questões numa terceira formulada assim: qual o sentido do homem na era tecnocientífica? A questão do sentido do homem é ao mesmo tempo ético-ontológica e tecnocientífica pois se refere à existência humana sem excluir nenhuma de suas dimensões.

II – TRÊS RESPOSTAS

Tentarei avançar pelo caminho conciliatório. Para isso, examinarei três respostas à pergunta "o que é o ser humano?": a primeira é meta física, a segunda fenomenológica e a terceira utilitarista.

1 – A metafísica

O conceito de pessoa não foi elaborado pelos gregos mas pelos pensadores cristãos. É de Severino Boécio a famosa definição: "a pessoa é o indivíduo subsistente numa natureza racional". Em termos de hoje, esta definição pode ser expressa assim: pessoa é a união do espírito com o corpo, ou seja, o espírito define a especificidade humana. Portanto, a alma racional nos diferencia radicalmente dos outros seres vivos. Esta diferença é tão profunda que demanda uma intervenção divina. De fato, para os pensadores medievais, a alma, sendo espiritual e imortal, transcende às forças e leis biológicas. Não são os pais que transmitem a alma aos filhos, mas é Deus que cria e infunde a alma em cada ser humano no momento de sua concepção. Então, cada um de nós foi produzido por um duplo ato: um biológico, pelo qual os pais geram o corpo, e um divino, pelo qual Deus implanta a alma espiritual no corpo, resultando um novo ser humano ou uma nova pessoa. Portanto, a pessoa é a união da alma espiritual e imortal com o corpo material vivificado pela alma.

Este é o núcleo metafísico e permanente do ser humano; dele emergem, como conseqüências naturais, a inteligência, a liberdade, a criatividade, a consciência ética, a capacidade de diálogo, a sociabilidade, enfim, todas as qualidades superiores do homem. Evidentemente, estas qualidades são muito importantes, mas não são fundantes da estrutura radical do homem: são somente conseqüência e manifestação de uma estrutura mais profunda e ontológica, ou seja, a essência humana como a união do Espírito com o corpo. Veremos adiante que a fenomenologia deixa de lado a idéia de essência humana e concentra sua reflexão sobre a liberdade, criatividade
e historicidade da existência humana revelada pela sua relação com os outros no mundo.

Que tem a ver esta definição metafísica com a ética? Tudo. Pois sendo a alma espiritual e imortal, o homem é marcado por um destino eterno e deve ser respeitado como criatura e filho de Deus. Esta condição faz do homem um ser privilegiado, o único ser ético, o único a não ser produzido inteiramente pela natureza.

Seu corpo, animado por uma alma espiritual e imortal, é intocável e indisponível a toda manipulação. Sobre o corpo humano são permitidas só intervenções terapêuticas. Nenhuma circunstância justifica o aborto; a fecundação in vitro representa sempre um grave desvio do processo natural da geração humana; toda experimentação genética sobre o ser humano, embrionário ou adulto, é sempre inaceitável porque converte a pessoa humana em objeto de estudo que acaba sendo descartado no fim das experiências laboratoriais. No mesmo quadro de proibições inscrevem-se os anticoncepcionais artificiais, como pílulas e camisinhas por desviarem o curso natural das funções reprodutivas.

Por que tanto rigor e tantas proibições? Duas são as principais respostas. Em primeiro lugar, não é permitido intervir no corpo vivificado pela alma feita por Deus; a integridade do corpo deve ser respeitada como um templo. Em segundo lugar porque há o temor de que a ciência biológica se torne toda poderosa e ultrapasse seu campo de competência e invada a área teológica que ensina que só Deus é o senhor que dá a vida e tira a vida. Em poucas palavras, a pessoa é uma noção meta física e essencialista com base na biologia sendo que ambas se subordinam à teologia que afirma a origem divina da alma.
De fato, esta tese confunde metafísica com biologia, ou seja, quer provar cientificamente que a personalidade deriva da composição biológica do ser humano. Ou, em outras palavras, o encontro dos cromossomos masculinos e femininos produzem um novo ser humano ou pessoa. Isto significa que a estrutura biológica é ou constitui a personalidade humana. Esta identificação tenta explicar a metafísica pela biologia, o que é impossível. De fato, é impossível aos laboratórios descobrirem o gene da personalidade pelo simples fato de que os genes são de ordem biológica (e como tais, estudados pela genética) e a personalidade é de ordem conceptual (e como tal, elaborado pela filosofia e a ética). A pessoa e a personalidade não são um produto biológico mas cultural, construído durante milênios pela filosofia, pela ética, pelas religiões e pelo direito.

2 – A fenomenologia

Como acabamos de ver, a meta física clássica criou um conceito essencialista e estático de pessoa que se apóia na biologia e na teologia. Em nosso século, a fenomenologia defende um conceito dinâmico da pessoa. O ponto de partida é a idéia de relação. O ser humano não é uma essência definida e estruturada desde o início, ou seja, não é meramente um dado biológico. Antes de tudo, somos um ser tecido de relações; somos um ser relacional que vai se construindo com os acontecimentos pessoais e coletivos. Numa palavra, as relações são a base da personalidade. A personalidade cresce sempre, desde o seio materno até as relações socio-políticas da idade madura: a pessoa está sempre acontecendo.

Esta teoria filosófica se apóia também nas teorias da evolução da vida. Segundo esta tese, a pessoa emerge toda inteira da natureza como corpo e como espírito; aliás, aqui faz pouco sentido distinguir a parte corporal da espiritual: o ser humano é todo inteiro corporeidade pensante que vai se fazendo ao longo do processo temporal.

Segundo esta teoria, em seus primeiros estágios, o embrião humano ainda não é uma pessoa definida e completa. Mas o embrião humano que tem desde o início todos os elementos genéticos do adulto, é apenas pessoa em potencial ou seja, um processo de personalização. Isto é, os elementos genéticos vão se desdobrando, crescendo até serem aptos a fazer atos conscientes e escolhas livres. Portanto, para as teorias fenomenológica e evolucionista, as qualidades superiores do homem como consciência, inteligência e liberdade, não são dádivas divinas mas produtos da natureza. Ademais, o ser humano alcança sua maturidade no estágio ético ou seja, quando o homem consciente e livre vive e age coerentemente segundo uma ordem de valores.

Portanto, a ética fenomenológica sustenta a evolução por inteiro do ser humano, em seu corpo e no espírito. Não há motivo para considerar que a alma seja uni dom divino, criado por Deus no ato da concepção. De fato, a natureza produz toda a realidade humana: corporal e espiritual.

Nem por isso a fenomenologia defende o nivelamento de todos os seres vivos: não exalta as outras espécies de vida às custas do rebaixamento do homem. Pelo contrário, a fenomenologia sustenta que o aparecimento do ser humano na natureza transcende às fases e formas anteriores de vida.

O ser humano é transcendente não no sentido de que uma intervenção divina especial mas no sentido que é o produto mais avançado da evolução da natureza. Nele e por ele a natureza dá um salto qualitativo e alcança o estágio superior. Isto é, no homem e pelo homem a natureza salta do estágio meramente físico, biológico e determinista para o estágio da História presidida pela inteligência e pela liberdade. Portanto, no Homem e pelo Homem todas as criaturas ganham nova qualidade, nova dignidade e respeitabilidade ética mas em graus diferentes. É claro que o Homem ocupa o grau mais elevado de qualidade biológica e ética.

Nisto a fenomenologia se distingue profundamente da metafísica que defende a personalidade como um fato biológico dado definitivamente desde o início. Pelo contrário, a fenomenologia destaca que a evolução do ser humano é um processo temporal de personalização, concebido como pessoa potencial que vai se tornando pessoa plena e sempre em expansão e crescimento ao longo da vida inteira; nunca somos pessoa acabada, somos um ser aberto à realização de novas potencialidades e possibilidades pelo exercício da liberdade e criatividade.

Que tem a ver tudo isto com a ética? Tudo. Na metafísica clássica, a ética consiste no respeito à essência humana dada pela natureza. Para a fenomenologia, a ética é ativa, é o exercício responsável da liberdade e da criatividade. A ética está sempre acontecendo como a personalidade, ou seja, a ética é histórica como todo processo evolutivo conduzido pela inteligência.

Portanto, pela fenomenologia, a ética ganha ampla flexibilidade e transcende às normas fixas estabelecidas pela ética essencialista. Ao mesmo tempo, cresce a responsabilidade do exercício da liberdade. Não basta aplicar uma norma permanente aos fatos da vida mas é preciso descobrir sempre de novo o sentido ético dos acontecimentos.

Examinemos agora alguns exemplos à luz desta perspectiva ética. Tomemos primeiramente o espinhoso caso do aborto. Segundo a ética fenomenológica nem sempre o aborto é um procedimento imoral e criminoso, visto que o embrião e o feto ainda são pessoa em potencial, um processo de vir-a-ser pessoa. É claro que os casos em que se aceita eticamente o aborto devem ser determinados em lei. O legislador, por sua vez, faz a norma aceitando a visão ética segundo a qual em embrião ou feto ainda não é pessoa. Ao contrário, seria um absurdo ético que a lei descriminalizasse um assassinato.

Esta flexibilidade (inadmissível na ética essencialista) não significa que a fenomenologia justifique o aborto em geral. Não é uma ética abortista; mas a elasticidade de seus princípios permite justificar o aborto em determinadas circunstâncias existenciais das pessoas e, sobretudo, fornecer um fundamento à legislação sobre o aborto cada dia mais aceita no mundo inteiro.

Um segundo exemplo é tirado dos atos tecnocientíficos praticados sobre o ser humano embrionário ou adulto. São eticamente válidos desde que feitos segundo o respeito e a beneficência devidos ao ser humano em qualquer estágio. Isto porque um ser humano embrionário, fetal ou adulto é sempre um ser humano e nunca uma coisa; um embrião ou feto humano tem a dignidade de ser humano (ou pessoa em potencial) eticamente mais valioso que qualquer outra espécie vivente. Ele possui todos os genes humanos e está em via de vir-a-ser pessoa. É neste nível que deve ser tratado eticamente. Por exemplo, um feto humano abortado não deve ser material descartável com os restos de laboratório que vão para o lixo ou incineração.

Uma terceira reflexão se refere às partes do corpo humano. Nosso corpo é sempre humano no seu todo e em cada uma de suas partes. Por exemplo, uma placenta não é um objeto qualquer: ela será sempre uma parte do corpo humano e como tal deve ser tratada.

Enfim, qualquer que seja o estágio de sua evolução, o ser humano está situado no ponto mais adiantado da evolução e, por isso, revestido do grau mais elevado de eticidade.

Em quarto lugar examinemos o caso do cientista à luz da ética fenomenológica. Nem a ciência, nem a filosofia e nem a religião aceitam interferências em seus métodos, premissas e conclusões. Isto é, nem o saber tecnocientífico e nem o saber simbólico toleram ser tutelados. Esta já é uma conquista construída penosamente desde o caso Galileu. Como então resolver os conflitos éticos que surgem entre os saberes?

Em termos fenomenológicos, podemos trilhar o caminho que parte da liberdade da criatividade humana. Isto é, o mais importante não é a tecnologia nem seu produto mas sim o cientista. A tecnologia é um produto de uso e o cientista é um ser digno. Ele é ser humano livre, que age livremente em suas pesquisas. Mas ele não é um solipcista; exatamente por ser cientista, ele é um ser social, que serve aos outros seres humanos; para isto ele é apoiado por políticas públicas e por recursos públicos a fim de que produza resultados científicos para o bem da sociedade. Em outras palavras, a liberdade do cientista se articula com a liberdade dos cidadãos. As liberdades devem chegar a um consenso sobre o uso de um produto tecnocientífico. Por exemplo, uma comunidade pode concluir que não está preparada para o uso de um determinado progresso {clonagem); poderá vir a sê-lo em outro momento; por isto pode temporariamente recusar o uso desta novidade. Isto não significa resistência ao cientista e à ciência. O cientista continua livre em seu trabalho que poderá ser aproveitado em outro momento.

Em síntese, a ciência, através do cientista livre e cidadão, se enquadra sempre na visão ética fenomenológica que avalia a ciência a partir da convivência das liberdades. Portanto, a ética fenomenológica não é uma ética do 'pode ou não pode', que cria limitações odiosas aos cientistas. Pelo contrário, ela situa a liberdade e a criatividade do cientista num horizonte de totalidade e de sentido. Isto significa que a ciência não é um poder absoluto que se impõe inexorável e irresistivelmente ao destino humano e cósmico. Não. A tecnociência, como produto do saber humano, é apenas um elemento a mais, embora poderoso, no contexto histórico e subordina-se ao diálogo das liberdades que é a base do convívio social dos seres humanos com toda a natureza. Quem governa esta totalidade não é a tecnociência (que é um produto) mas a liberdade.

Finalmente, a ciência se situa num horizonte de sentido, tomado como ordenamento dos homens e das coisas tendo em vista a conquista de metas tais como a realização de um certo bem estar para todos, onde haja justa repartição dos bens materiais entre os seres humanos e uma convivência respeitosa do homem coma natureza. Então a ciência é um poderoso aliado na construção deste sentido da existência.

Na perspectiva da ética fenomenológica parece inútil proibir experiências, pois a tecnociência é exatamente o resultado de um árduo processo de experimentação. Toda vez que na história se proibiu a investigação científica o resultado foi sempre a manipulação camuflada. Em muitas ocasiões proibiu-se a pesquisa científica por medo que seu resultado viesse a ser mal utilizado ou usado para o mal. Este critério tímido não se justifica pois todo saber se presta a desvios. Portanto, não adianta proibir; melhor seria promover o entendimento e o consenso das liberdades convertido em legislação pública. Enfim, a ética orienta a decisão das liberdades sobre o uso dos resultados da pesquisa

Aqui, aparece o papel importante dos Comitês de Ética no que se refere à pesquisa sobretudo em seres humanos. A Resolução CNS 196/96 do Ministério da Saúde, que representa um belo esforço sobre a pesquisa feita sobre o ser humano, refere-se especialmente ao Consentimento Esclarecido do paciente que se dispõe a oferecer seu corpo para uma pesquisa científica. É muito importante que os Comitês de Ética se situem sempre no horizonte da totalidade e de sentido acima mencionado. A Resolução é uma baliza, uma referência que ajuda o Comitê a formular um juízo ético objetivo e bem fundado. Nada mais. É preciso ter presente que a Resolução não é a palavra final e que há situações concretas e existenciais que ultrapassam o texto: o contexto de totalidade e de sentido dão suporte ao próprio texto. Mais concretamente, o corpo humano é a face concreta e externa da personalidade. Por isso, o corpo de um paciente nunca é objeto de pesquisa mas é sempre sujeito de direitos e não pode ser tocado sem o consentimento prévio do sujeito. Por isso, o ato médico ou a investigação científica sobre o corpo humano é sempre um ato feito sobre a pessoa ou o ser humano em potencial que precisa ser tratado em seu nível ético. Assim, a ética fenomenológica ajuda a evitar o risco da biologização da medicina. De fato, há o perigo da medicina concentrar-se exclusivamente na dimensão biológica da existência humana e esquecer sua dimensão histórica e transcendente. Pelo contrário, o corpo humano deve ser visto não apenas pela biotecnologia mas também pela sua dimensão simbólica que inclui tradição cultural da pessoa, seus temores e esperanças, sua filosofia e suas crenças. Estes são imperativos reais que transcendem os imperativos tecnológicos.

Um último aspecto. A ética fenomenológica emerge da situação existencial e real das pessoas, como a cultura e formação de cada um, a condição familiar, social e religiosa, e os sentimentos atuais face aos problemas reais vividos. Podemos imaginar a situação real de uma moça que acaba de praticar um aborto clandestino. Essa mulher não quer ouvir falar no assunto por razões psicológicas e por razões de medo da lei que condena o aborto clandestino. É preciso ter muito tato humano para abordar esta pessoa e solicitar-lhe o consentimento para realizar pesquisas sobre o feto abortado.

Mais profundamente, a situação existencial pode ser descrita num quadro de quatro pontos:

a) A estrutura biológica da pessoa

Esta não é controlável pela liberdade e escolha livre. É um factum biológico que nascemos sem pedir, adoecemos sem querer e morremos sem decidir.

b) A estrutura ontológica

Em sentido filosófico, o ser humano é radicalmente finito: é uma existência que se abre em possibilidades sucessivas mas que, finalmente, se fecha e acaba seu ciclo de existência. Também aqui não há escolha livre: ninguém pode escolher ou decidir viver indefinidamente.

c) A dimensão histórica

Este é o espaço da liberdade e das escolhas livres, da criatividade, da auto-consciência e da construção coletiva da história. Nós fazemos nossa história; escolhemos uma trajetória positiva, boa para a pessoa e construtiva para os outros ou podemos andar por caminhos tortuosos, negativos para a nossa pessoa e pesados para a sociedade. Isto é, a liberdade toma em suas mãos a sua estrutura biológica dando-lhe um sentido no seio da sociedade colaborando para construir espaços de bem estar e de justiça. Enfim, a dimensão histórica é o amplo espaço da criatividade, do otimismo, da luta por fazer um mundo melhor para si e para a coletividade. Então, a nossa vida fica cheia de sentido e transcende ( a) o determinismo biológico e ( b ) o limite ontológico intransponíveis e incontroláveis pela liberdade. Entre estes dois extremos incontroláveis situa-se uma vastíssima área de liberdade e de criatividade que torna a vida digna de ser vivida. De fato, a vida é livre e faz sentido quando aberta aos outros e a projetos criativos.

d) A transcendência

Para a filosofia, a história é indeterminada: as pessoas passam e a vida humana continua indefinidamente. Mas, segundo uma visão de fé religiosa, nosso ser biológico e ontologicamente finito desemboca na "trans-história", na transcendência divina, numa vida feliz sem fim. Esta é a esperança que, por exemplo, a fé cristã abre aos crentes. Esperança que confere um sentido mais amplo às três dimensões anteriores, sobretudo à dimensão histórica que é o espaço da livre construção de si com os outros no mundo. Este esforço é pleno de sentido ético em si mesmo. A vida humana que luta por construir-se juntamente com os outros é digna e honrada por si mesma, independentemente da religião. Mas ela ganha um sentido ainda mais largo se, através da fé, a pessoa e a comunidade, se abrem a uma esperança transcendente.

Enfim estes quatro pontos da situação existencial podem ser sintetizados numa prece de crente: "Senhor dá-me a força e coragem para fazer tudo o que posso, a graça de aceitar o que não pode ser modificado e a sabedoria de distinguir uma coisa da outra".

É neste quadro vivo e existencial que atua a ética fenomenológica. Ela está sempre se repensando, recriando-se sempre à luz dos acontecimentos da vida das pessoas e da história humana. A ética fenomenológica nunca é um paradigma fixo de normas morais que se aplicam friamente sobre uma realidade. Pelo contrário, ela está sempre acontecendo com a própria dinâmica da vida, orientando os acontecimentos para um sentido positivo e construtivo de cada pessoa, da comunidade e da realidade cósmica.

3 – O utilitarismo

Refiro-me aqui a apenas uma vertente do utilitarismo sugerida por Peter Singer na qual ele propõe como base da ética o respeito universal dos interesses das pessoas. Neste sentido, devemos "atribuir aos interesses alheios o mesmo peso que atribuímos aos nossos".

À luz deste princípio, Peter Singer analisa a pergunta: o que é o ser humano? Sua resposta começa por uma distinção entre pessoa (persona) e espécie humana (homo sapiens). Todo ser humano pertence à espécie homo sapiens. Como espécie, o ser humano não goza de nenhum privilégio em relação às outras espécies. Não faz sentido defender o "especismo", como não faz sentido sustentar o racismo ou sexismo. Portanto, um ser concebido de óvulo e esperma humanos pertencerá à espécie homo sapiens, mesmo que nasça com extremas deficiências como a anencefalia ou sofra irreversíveis deficiências mentais na idade adulta. Porém, enquanto homo sapiens este ser humano ainda não é pessoa e portanto ainda não é sujeito dos direitos que atribuímos às pessoas.

O homo sapiens passará a ser pessoa quando ganhar consciência de si, for capaz de controle de suas emoções, de manifestar desejos, interesses e defendê-los. Então, um embrião, um feto e uma criança ainda não são pessoa; e um adulto que perde definitivamente a consciência de si deixa de ser pessoa.

Esta tese sofreu muitas objeções e oposições principalmente por parte dos que, considerando a sacralidade da vida, recusam o aborto em qualquer circunstância e condenam a eutanásia pela mesma razão de fé. Da mesma forma, Peter Singer enfrenta as objeções da meta física que defende a existência da pessoa desde a concepção até o fim da vida.

Sejam quais forem as discussões que a posição de Peter Singer levanta, um dado é certo: o autor não defende um utilitarismo frio, egoísta e calculista de interesses pequenos. O princípio do igual respeito aos interesses de todos leva o autor a "pensar a vida com sentido, com um objetivo mais amplo que os interesses pessoais que extrapola os estreitos limites de nossos estados conscientes: este é o ponto de vista ético". É isto que dá significado e um objetivo à vida.

Creio que Peter Singer teria evitado muitas dificuldades com seus adversários se tivesse analisado, sob o prisma da "vida com sentido", os graves problemas que a biociência levanta sobre a vida humana. É neste amplo contexto do sentido ético da vida que convém discutir, por exemplo, aborto, eutanásia, concepção in vitro, clonagem etc. Então, o princípio do igual respeito aos interesses de todos funda-se "na vida com sentido". Nisto consiste a ética que transcende os interesses subjetivos para articular-se com a vida dos outros com os quais construímos um mundo mais digno. Se esta leitura for correta, então é possível um amplo diálogo entre Peter Singer e a posição da ética fenomenológica acima exposta.

CONCLUSÃO

Acabamos de expor três maneiras de responder à pergunta: O que é o ser humano? A resposta meta física, apesar de sua longa história, revela-se distante dos dramas existenciais. Seus defensores tentam apresentá-la, hoje, sob a roupagem do humanismo; mas sem êxito, visto que, para esta corrente de pensamento, o Homem é feito para obedecer aos princípios e não os princípios à condição quotidiana da vida.

Neste sentido, a fenomenologia é muito mais humanista: para esta teoria, não só a existência humana é mutável e evolutiva mas também os princípios éticos. A ética, como a vida é uma contínua descoberta de sentido e de estilos de se viver com dignidade. As verdades éticas absolutas são incompatíveis com o processo temporal da existência, notadamente nesta época de extraordinárias e profundíssimas descobertas no campo da biologia que obrigou a repensar nossos modos tradicionais de conduta.

Quanto ao utilitarismo de P. Singer, vimos acima em que condições é possível um diálogo humanista com ele. O que faz problema não é propriamente a posição de P. Singer, mas a teoria utilitarista geral baseada "no maior benefício para o maior número possível"; este princípio, além de ser excludente das minorias, pode, pelo cálculo do maior benefício para a maioria, justificar até o sacrifício de pessoas. Enfim, o utilitarismo acentua mais o cálculo das utilidades que a central idade ética da pessoa.