As
Implicações Éticas
Por
Karla Bernardo Montenegro

Usar embriões congelados excedentes de tratamentos
de fertilização ou obter células-tronco
a partir de clonagem terapêutica são duas soluções
que a Biologia e a Medicina estão propondo para tentar
chegar mais perto da cura de várias doenças.Ao
mesmo tempo, que gera esperança provoca também
importantes questionamentos éticos, identificados
pelos especialistas na área da Bioética. Quando
são relatados os aspectos morais da manipulação
do material biológico humano, várias perguntas
ficam sem resposta: É moralmente válido produzir
e utilizar embriões humanos para separar as suas
células-tronco? A esperança das pessoas, traduzida
na criação constante de novas terapêuticas
está acima da vida dos embriões que terão
que ser produzidos para gerar as células-tronco?
Nos países onde é permitida a clonagem terapêutica
haverá a comercialização do tecido
produzido em laboratório através do envio
deste material para países onde a técnica
é proibida?
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As
pessoas precisam deixar de ter medo das palavras.
Quem fala, por exemplo, que é contra a clonagem
reprodutiva mas é a favor da clonagem terapêutica
está equivocado, já que nos dois casos
se trata de clonagem, mesmo que a finalidade de
cada uma seja diferente.
Marlene
Braz
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Na
opinião da médica psicanalista, pesquisadora
em Bioética da Pós-graduação
em Saúde da Criança e da Mulher do Instituto
Fernandes Figueira da Fundação Oswaldo Cruz
e Diretora Executiva da Sociedade de Bioética do
Estado do Rio de Janeiro - SB Rio, Prof. Dra. Marlene Braz,
é importante ouvir tanto as argumentações
ditas "conservadoras" quanto às denominadas
"progressistas" para formar uma opinião
sobre o que é certo e o que é errado na queda
de braço entre os que se posicionam a favor e contra
o uso de células tronco embrionárias.
Para
Marlene Braz, "As pessoas precisam deixar de ter medo
das palavras. Quem fala, por exemplo, que é contra
a clonagem reprodutiva mas é a favor da clonagem
terapêutica está equivocado, já que
nos dois casos se trata de um mesmo procedimento - a clonagem.
O termo "Clonagem terapêutica" é
um eufemismo para os que não querem falar a palavra
"clonagem".
No
que se refere a obtenção de células-tronco
a partir de embriões congelados, Marlene chama a
atenção para o grau do simbolismo existente
nos embriões congelados dentro dos cilindros nas
clínicas de reprodução assistida. "Muitos
casais já consideram estes embriões como filhos
que podem existir a qualquer momento". "Alguns
outros os vêem como material biológico",
afirma.
-Pela
possibilidade de se estabelecer uma relação
com o seu "embrião", o casal passa a viver
um problema ético.O que fazer com os embriões
se não planejamos ter mais filhos? É nesta
hora que alguns defendem uma espécie de "ética
da solidariedade", isto é, em nome do bem da
sociedade seria oferecida, ao casal, a possibilidade de
doar os embriões para a pesquisa. Será que
o casal tem informação suficiente para decidir
o destino daquele material? O embrião que a princípio
foi produzido para gerar vida pode virar um órgão
e isto seria diferente da clonagem reprodutiva? É
preciso que o casal tenha total entendimento desta situação-
explica Marlene Braz.
Os
que estão na outra ponta deste processo, aguardando
na fila de doação de órgãos,
também precisam saber dos riscos. "Com o uso
das células-tronco embrionárias doadas o paciente
não está livre do fantasma da rejeição.
Para não correr este risco as células-tronco
deveriam ser retiradas de embriões clonados a partir
do DNA do próprio paciente", lembra.
Quando
perguntada a respeito da pertinência da discussão
sobre qual é o início da vida, com a finalidade
de saber se o embrião congelado teria o status de
ser humano, Marlene reflete: "Sem dúvida o embrião
é um ser vivo. Não é ainda pessoa,
mas já é vivo", opina, ressaltando que
"apesar desta discussão ser importante, não
devemos esquecer aspectos também relevantes, como
a ameaça do mercado de órgãos, os riscos
de rejeição, entre outros".
Quando
a Bioética olha para a questão da Clonagem
Terapêutica, os obstáculos éticos se
multiplicam. "No caso da clonagem, os embriões
são produzidos já com o objetivo específico
de gerar células-tronco e a partir delas, tecidos
e órgãos. Em vez de reproduzir por inteiro
uma pessoa, um clone ou gêmeo tardio, se cria um pedaço
dele. Se todos os países baniram a clonagem reprodutiva
porque não banir a dita clonagem "terapêutica",
que na realidade também não passa de reprodução,
só que de pedaços do corpo? É moralmente
relevante distinguir duas espécies de clonagem, se
na realidade elas objetiva a mesma coisa, isto é
reproduzir?",indaga a médica.
Outro
conflito ético diz respeito às mulheres. A
clonagem terapêutica prevê a doação
de óvulos para a produção de embriões.
"Submeter a mulher a técnicas invasivas para
a obtenção de vários óvulos
por ciclo não é um procedimento ético,
afirma Marlene Braz, lembrando que para o feito da Coréia
do Sul (obtenção de células-tronco
embrionárias a partir de um embrião clonado
com a finalidade terapêutica) foi preciso utilizar
dezesseis mulheres que geraram 242 óvulos. Deste
material foram desenvolvidos apenas trinta embriões
e apenas uma linhagem de células-tronco de cartilagem
, músculo e ossos." Também neste estudo,
mostrou-se inviável produzir um embrião clonado
a partir de DNA de outras mulheres que não a própria
doadora do óvulo, assim como de material genético
de células masculinas, o que restringe bastante sua
utilização. No caso só a partenogênese
daria resultado (óvulo de uma mulher enucleado com
a colocação, em seguida do seu próprio
DNA) e somente a própria doadora do óvulo
poderia ser beneficiada.
Marlene
.fez referência também a um artigo publicado
em fevereiro deste ano no jornal americano New York Times
no qual especialistas apontam sérias dificuldades
para se conseguir clones humanos livres de aberrações
genéticas. "Quando da concepção,
na fase da meiose, o material genético do óvulo
é unido com o do espermatozóide, se unem os
23 cromossomos da mãe com os 23 do pai para formar
os 46. No momento desta junção o organismo
faz um reparo do DNA, corrigindo possíveis erros
e mutações o que, se não for feito,
gera mal formações.Com o clone, este estágio
é pulado e podem surgir muitos defeitos genéticos
e este é um dos problemas técnicos mais difíceis
de serem sanados", explica.
-Existe,
também, uma diferença moral entre os dois
métodos: No caso do embrião congelado ele
foi criado com a intenção de ser fertilizado.
Já no caso do clone ele foi gerado para ser destruído,
mesmo com o argumento que a intenção, neste
caso, seria salvar vidas, avalia. Será moralmente
aceitável salvar vidas tirando outras?, avalia.
Segundo
Marlene, para acabar com os conflitos éticos o ideal
seria o incentivo total para as pesquisas envolvendo células-tronco
adultas já que recentes resultados apontam para descobertas
promissoras nesta área."O pesquisador Antônio
Carlos Campos,do departamento de Biofísica da UFRJ
citou em um artigo uma recente pesquisa com células-tronco
neuronais que teriam capacidade de diferenciação
generalizada.", afirma. "Os resultados da pesquisa
com células-tronco adultas têm sido muito promissores
e isto seria o fim dos problemas relativos à incompatibilidade
e rejeição, além de não suscitar
questões éticas e religiosas", conclui.
