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ENGENHARIA
GENÉTICA E SOCIEDADE
João Bosco Oliver de Faria
Bispo de Patos de Minas
Lembro
as palavras do teólogo Boeckle: "Chegamos, claramente,
a um ponto em que somos capazes de mais do que nos é permitido
fazer e é por isso que não nos é permitido
fazer tudo de que somos capazes."
Não
apenas os povos antigos e primitivos em seus costumes, mas ainda
recentemente os nossos índios na América e os negros
na África cultuavam as forças da natureza e os animais,
como se eles fossem deuses. Os gregos, por terem uma terra mais
pobre e lavada e, depois deles, os romanos já concebiam os
deuses semelhantes ao homem, com vícios e virtudes.
Com
o tempo, o homem perdeu o medo da natureza. Aprendeu a conviver
com ela, depois a usá-la e, por fim, a dominá-la,
usando-a em seu favor.
Numa
recente etapa desse processo, instigado pelas descobertas científicas
sobre si mesmo, o homem está aprendendo a manipular a sua
formação biofísica. O filho não pode
escolher o pai ou a mãe que recebe, mas há os que
pensam em dar ao homem a capacidade de poder escolher o tipo biofísico
do filho que vai ter. Começam aqui os problemas éticos,
pois o filho será amado porque foi programado nas suas qualidades
e não pelo fato de ser filho. O utilitarismo e o consumo
fazem do próprio homem a novidade do mercado!
A
doutrina da Igreja a respeito da vida humana e da vida em geral,
que está a serviço do homem, fundamenta-se numa concepção
filosófica personalista do homem, enquanto pessoa única,
irrepetível e insubstituível e, no plano teológico,
enquanto a única criatura que Deus quis por si mesma, não submetida,
em seu ser, ao equilíbrio ecológico, uma vez que todo
esse equilíbrio está a serviço do próprio
homem e a alma espiritual de cada um dos homens é "imediatamente
criada" por Deus.
Só
Deus, sozinho, é o criador da vida. Só Ele, portanto,
tem soberano domínio sobre a vida humana. Nenhum cientista
conseguirá produzir a vida, vegetal ou animal, dentro de
uma câmara de vácuo, sem partir das forças criadas
por Deus e que estão na matéria orgânica.
A
vida é mais que um processo biológico, ela brota como
força das mãos de Deus. "A vida humana é
sagrada porque desde o seu início comporta a 'ação
criadora de Deus' e permanece sempre em uma relação
especial com o Criador, seu único fim". A vida humana é
uma realidade ética e religiosa, cuja saúde e vigor
dependem de uma integração superior da vontade humana
com a vontade de Deus.
A
Igreja não é dona da verdade. Ela é serva e
guardiã da verdade que nos leva a Deus, Senhor de toda a
criação e que fez bem todas as coisas: "Deus
viu tudo o que tinha feito: e era muito bom". Deus, ao criar o
homem, fê-lo à sua imagem e semelhança. Deu
ao homem um corpo vivificado pelo espírito e enriquecido
com a Sua vida divina.
O
corpo não é um objeto, é um sujeito. É
uma realidade unificada pela subjetividade. A corporeidade, por
si só, não tem existência. É a alma que
vivifica e estrutura o corpo. O "EU" vem do espírito.
Todo o corpo é personalizado. Tudo vem vivificado pelo "EU".
O corpo é vivificado pela pessoa.
É
a partir da compreensão do projeto divino na pessoa humana
que o homem vai perceber os critérios de sua conduta moral
no tocante ao seu corpo, e sobretudo, sua vida.
A
Igreja não rala em nome de uma particular competência
no campo das ciências experimentais, mas pretende propor uma
doutrina moral fundamentada em "critérios de respeito,
defesa e promoção do homem, de seu direito primário
e fundamental à vida, de sua dignidade de pessoa, dotada
de uma alma espiritual, de responsabilidade moral e chamada à
comunhão beatifica com Deus".
Lembra
ainda a Instrução "Donum Vitae" que é
impossível uma neutralidade moral da pesquisa científica
e de suas aplicações, bem como que os critérios
de orientação para o homem na pesquisa científica
não podem ser deduzidos apenas da eficiência técnica,
da utilidade que pode trazer para alguns em prejuízo de outros,
ou de ideologias dominantes.
Os
valores fundamentais a serem preservados são "a inviolabilidade
do direito do ser humano inocente à vida, "desde o momento
da concepção até a morte", e a originalidade
de sua transmissão no matrimônio. Esse direito à
vida é um sinal e uma exigência da inviolabilidade
mesma da pessoa à qual o Criador concedeu o dom da vida".
Com
respeito à transmissão das outras formas de vida no
universo, a transmissão da vida humana tem uma sua originalidade,
que deriva da originalidade própria da pessoa humana. "A
transmissão da vida humana é confiada pela natureza
a um ato pessoal e consciente e, como tal, sujeito às sacrossantas
leis de Deus: leis imutáveis e invioláveis que devem
ser reconhecidas e observadas. É por isso que não
se pode usar meios e seguir métodos que podem ser lícitos
na transmissão da vida das plantas e dos animais". O ato procriador
humano é um ato corpóreo, psíquico e espiritual.
Não se pode separar a dimensão fisiológica
da psíquica e espiritual. A procriação humana
exige uma colaboração responsável dos esposos
com o amor fecundo de Deus; o dom da vida
humana deve realizar-se no matrimônio, através dos
atos específicos e exclusivos dos esposos, segundo as leis
inscritas nas suas pessoas e na sua união.
O
que se condena não é o uso da técnica, mas
a separação e um dualismo entre a dimensão
biológica fecundativa e a dimensão espiritual do "EU"
esponsal.
O
embrião humano
Não
há mais dúvida, para a ciência, de que, a partir
do momento em que o óvulo é fecundado inaugura-se
urna nova vida que não é nem a do pai nem a da mãe,
mas sim a de um novo ser humano que se desenvolve por conta própria.
Nunca mais se tomaria humana, se não o fosse desde então. O embrião
humano pertence à categoria dos seres dotados de vida humana
pessoal. O embrião humano, a partir, pois, de sua concepção,
tem todos os direitos de vida humana e merece todo o respeito enquanto
tal. Ele não pode ser produzido como material disponível
para os laboratórios, nem eliminado, quer por ser supranumerário,
quer por não possuir as qualidades desejadas de saúde.
Bastaria a possibilidade de se tratar de um ser humano para se evitar
a manipulação ou supressão do embrião.
O
ser e a pessoa não pertencem ao campo dos conceitos biológicos
e"Não são objetos formais da pesquisa empírica.
A genética e a biologia sugerem uma documentação
sempre maior de que o embrião é um indivíduo
da espécie humana e que será um adulto como nós.
O embrião humano não é, também, um tabu,
no qual não se possa tocar. São consideradas lícitas
as intervenções no embrião humano que respeitem
a vida e a integridade do embrião;
-
não comportem riscos desproporcionados;
-
sejam orientadas para a sua cura;
-
sejam orientadas para a melhoria de suas condições
de saúde e sobrevivência individual.
São,
pois, consideradas imorais
- a
produção de embriões humanos destinados a
ser material biológico disponível;
-
a destruição de embriões supranumerários
ou obtidos para fins de pesquisa;
-
a junção de gametas humanos e animais;
-
o uso de úteros de animais para desenvolvimento do embrião
humano;
-
o útero artificial;
-
a tentativa de se obter embrião humano sem conexão
com a sexualidade, por fissão gemelar, clonagem ou partenogênese;
-
o congelamento e a manipulação do embrião:
há risco de morte e de perda da integridade física,
com a privação temporária da acolhida e gestação
maternas;
-
a redução embrionária dentro ou fora do útero.
João
Paulo II, na sua Encíclica "Evangelium Vitae",
usa as seguintes palavras sobre a morte provocada em embriões:
" A avaliação moral do aborto deve aplicar-se
também às recentes formas de intervenção
sobre embriões humanos, que, não obstante visarem
a objetivos em si legítimos, implicam inevitavelmente a sua
morte. É o caso da experimentação sobre embriões,
em crescente expansão no campo da pesquisa biomédica
e legalmente admitida em alguns paises".
Engenharia
genética e diagnose pré-natal eugênica
A
substituição no embrião de gens doentes por
gens sadios, ainda que sintéticos, e que visa ao bem direto
do próprio embrião com expectativa de êxito
proporcional ao risco é apreciada como atitude correta.
É
positiva a diagnose pré-natal que respeita a vida e a integridade
do embrião ou do
feto humano e que se orienta para a sua salvaguarda ou para a sua
cura individual.
Os
problemas éticos surgem quando a finalidade dessa diagnose
não for o bem do embrião mas o comodismo e o "bem-estar"
dos pais que não querem correr o risco de ter um filho não
totalmente saudável e que vai lhes exigir alguma renúncia
em seu "modus vivendi". Há o risco de chegarmos
a uma eutanásia pré-natal.
O
conceito de pessoa humana pode se tomar um conceito fluido. Para
alguns, o feto adquiriria direitos ao nascer; para outros, é
pessoa aquele que pode raciocinar .Mas como ficariam os que sofrem
do mal de Alzheimer? É melhor dizer: se é indivíduo
humano, é pessoa.
O
"pré-embrião" - O termo "pré-embrião"
é uma impropriedade científica. Dizem que até
o 14° dia não há indivíduo humano. Haveria
um grupo de células aglomeradas e separadas. Haveria nesses
dias a preparação para aquele ser em que acontecerá
a organogênese.
O
que se vê é o contrário: há uma unidade
anterior, um plano e um programa que se desenvolve e continua numa
determinada linha. O termo "pré-embrião"
é um sofisma e um eufemismo para se justificar a manipulação
do mesmo.
A
fecundação artificial
Não
existe um direito próprio ao filho. O filho é um dom
de Deus. Se é dom, não existe o direito de tê-lo.
A Igreja vê com carinho e participa do sofrimento dos casais
que não conseguiram um filho. Mas entre as muitas soluções
está aquela da adoção de uma criança
sem lar.
A
doutrina da Igreja, a esse respeito, sinteticamente, poderia ser
seguintes termos:
é
imoral toda e qualquer fecundação artificial fora
do matrimônio. Assim, é imoral a fecundação
artificial quando da participação de uma terceira
pessoa doadora (do óvulo ou do espermatozóide);
é,
também, imoral, a fecundação artificial acontecida
entre duas pessoas, sem o compromisso, já realizado, de uma
vida matrimonial;
é
imoral toda e qualquer fecundação artificial em que
o embrião é produzido fora do corpo humano e do ato
de amor conjugal.
A
medicina é válida quando ajuda o casal a obter o fim
de seu ato conjugal, contudo torna-se errônea quando substitui
o ato de amor de um casal na geração de um filho.
É
considerada legitima a retirada dos ovócitos, por laparoscopia
e sua introdução na trompa baixa ou no útero,
convidando-se o casal a ter, então, sua relação
de amor (LTOT).
.A
Igreja não se pronunciou sobre a modalidade em que o óvulo
e os esperrnatozóides são contemporaneamente colocados,
mas, em separado, no útero ou na trompa baixa (GIFT).
Diogini
Tettamanzi, seguindo a Instrução "Donum Vitae",
apresenta três critérios morais de referência
para a aplicação da fecundação artificial:
- o
respeito do direito à vida do embrião;
-
o contexto propriamente matrimonial;
-
a presença do ato conjugal como condição
para a procriação digna da pessoa humana.
Clonagem
É
evidente seu caráter de aberração científica
pela total manipulação e programação
do embrião, com altos riscos de deformação
para o nascituro e, pior ainda, a redução da concepção
de um ser humano aos parâmetros admissíveis para animais
e vegetais.
Manipulação
de células estaminais
Se
acontece com células de adulto ou do cordão umbilical,
não há risco para a pessoa que cede as células
Se
acontece com um feto resultante de aborto espontâneo, entram
os parâmetros éticos do aproveitamento de órgãos
de um cadáver para fins de transplantes.
Se
o aborto é provocado para tal fim, além da malícia
do aborto, acrescenta-se a maldade do sacrifício de uma vida
humana inocente em beneficio de um terceiro.
Se
acontece com um embrião vivo, temos a malícia da instrumentalização
de uma vida humana e o alto risco de saúde para esse embrião.
Dentro
dessas linhas gerais, há ainda um vasto campo de questionamentos
cuja reflexão não seria oportuna no tempo que temos
disponível para esta exposição.
O
mapeamento do DNA e sua conseqüente leitura trarão,
para nós, informações deslumbrantes sobre a
Sabedoria Divina na ordem da criação. O homem continua
curvado, na sua pequenez, para rezar com o Salmista: "Os céus
contam a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra de
suas mãos". Salmo 19,2.
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João Paulo ",
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Donum Vitae, Ed. C. 22
Tettamanzi, Oionigi, Bioetica,
nuove frontiere per l'uomo, Piemme, 1990- P. 184
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