
Dr. Guilherme Kurtz no INCa
Não existe um só remédio que funcione
para todas as pessoas. Está provado que existem
variações individuais na resposta aos medicamentos,
o que equivale a dizer que duas pessoas tomando o mesmo
remédio podem ter respostas completamente diferentes:uma
pode ficar curada e a outra não. Esta é
uma das principais afirmativas da farmacogenômica,
uma ciência que pretende contribuir para acabar
com tratamentos inadequados e diminuir o sofrimento causado
pela dor. Com a individualização das terapêuticas
nunca mais o paciente terá que correr o risco de
tomar um remédio que não vai fazer efeito.
Esta nova maneira de receitar medicamentos,em um primeiro
momento, vai encarecer a medicina, gerar a necessidade
de adequação a novas tecnologias e equipamentos,
abrir um leque de questões éticas e vai
incomodar a indústria. A contrapartida será
uma população menos doente, cuidando das
suas pré-disposições genéticas
e diminuindo substancialmente as internações
para o tratamento de efeitos colaterais. O Projeto Ghente
conversou com um dos mais importantes médicos farmacologistas
do Brasil, o Dr. Guilherme Kurtz, coordenador de pesquisa
do INCA, o Instituto Nacional do Câncer.
Projeto
Ghente-Como o Dr.conceituaria a Farmacogenética?
Dr. Guilherme Kurtz- É o estudo das variações
individuais na resposta aos medicamentos. Estas variações
são advindas de fatores genéticos.
Ghente
-A Farmacogenética já é uma realidade
no Brasil?
Kurtz - A Farmacogenética já existe
desde 1953. O nome Farmacogenômica é um nome
mais recente por conta do Projeto Genoma Humano. A diferença
entre as duas é muito questionável.Eu as
considero sinônimas. No Brasil estamos em pleno
processo de criação de uma rede nacional
de Farmacogenética / Farmacogenômica. As
primeiras iniciativas aconteceram em 2002. A Coordenação
de pesquisa do Inca entrou em contato com vários
núcleos que faziam farmacologia e genética
e a partir daí foi criada uma rede nacional, a
princípio seria Renafar e depois passou a se chamar
Refargen. Após a primeira reunião do grupo
recebemos um convite da Secretaria de Desenvolvimento
Científico e do Ministério da Ciência
e Tecnologia e levamos até Brasília as nossas
idéias e o projeto foi muito bem recebido. Nossa
expectativa é que nos primeiros seis meses deste
ano de 2004 um edital para financiamento de projetos na
área de pesquisas em torno de farmacogenética
/ farmacogenômica seja lançado e a partir
daí a rede fique consolidada.
"Existem variações
genéticas individuais na resposta aos medicamentos
".

Ghente-Quem
integra a Rede?
Kurtz-São 21 grupos. Desde Belém até
o Rio Grande do Sul. São cinco grupos no Rio: um
na Uerj, dois na UFRJ, um na Fiocruz, um no Inca. Temos
quatro em São Paulo, temos em Minas Gerais,Paraná,
Ceará, Rio Grande do Su . A Rede está se
capilarizando pelo país todo.
Ghente-
Com a utilização da Farmacogenômica
em larga escala, pode-se dizer que será o fim da
dor?
Kurtz-Com a Farmacogenômica será possível
obter uma resposta mais rápida sem precisar "errar
e acertar durante muito tempo", ou seja, mudar a
dose, mudar de medicamento. Um bom exemplo é o
tratamento da pressão arterial. Hipertensão
é uma doença muito complexa. Tem pacientes
que possuem alterações cardíacas,
outros alterações vasculares, outros tem
alteração renal, alterações
metabólicas, todos estes fatores levam ao quadro
da hipertensão arterial. Cerca de 50% dos pacientes
não respondem bem ao primeiro tratamento apesar
de todo o exame do médico. Ele sempre parte para
uma segunda terapêutica. Com a medicina individualizada
e a implementação da farmacogenética
o paciente levará até o médico informações
genéticas preciosas que fará com que seja
indicado o remédio certo, sem a necessidade de
experiências de nenhum tipo. Este procedimento no
primeiro momento vai encarecer a medicina por que irá
gerar a necessidade de treinamento, equipamentos adequados
e a formação de centros especializados.
Quando isto tudo estiver implementado o custo do exame
irá cair e o mais importante: irá diminuir
significativamente os efeitos tóxicos na população
e acabar com a necessidade do tratamento de efeitos colaterais.
Nós saberemos em um exame trivial quais são
os genes importantes para a resposta aos medicamentos.
Ghente-Existe
alguma estatística do efeito do uso da Farmacogenética?
Kurtz-Dados do Reino Unido(2003) dão conta
que 4% dos leitos da Inglaterra são ocupados para
tratar de efeitos colaterais. Este número imenso
de pessoas geram um custo de 720 milhões de libras/ano
para o governo.
Ghente-A
Farmacogenômica vai acabar com a desinformação
e a automedicação na medida que cada indivíduo
vai saber suas pré-disposições?
Kurtz-Não acabará com a automedicação,
a questão é que muitos acham que só
o medicamento sintético tem problema e acaba utilizando
produtos naturais sem orientação. Um bom
exemplo é o uso da erva de São João
no caso do tratamento da depressão. É uma
erva realmente eficaz,com efeito comprovado. Equivale
a utilizar o remédio "Prozac". O perigo
é que a erva modifica a absorção
de outros medicamentos. Ela diminui esta absorção.
Existem casos na literatura onde pacientes que estavam
sendo tratados pela infecção de HIV com
antiretrovirais e estavam deprimidos utilizaram a erva
de São João e o efeito foi o agravamento
da infecção por HIV, já que a erva
provocou uma resposta no intestino que diminui a absorção
do antiretroviral .A conclusão é que a erva
de São João é um produto natural
eficaz, mas quando administrado com outras substâncias
pode gerar efeitos terríveis. Outro exemplo é
o "grapefruit". Este alimento tem um forte efeito
negativo sobre a absorção de medicamentos.
Ao tomar o suco, a absorção do remédio
é maior e as pessoas se intoxicam.
"De início a farmacogenética
vai aumentar o custo da medicina e promover uma grande
mudança na maneira como se faz a medicina".

Ghente-No
Brasil, que tem tantas etnias, como é a resposta
aos medicamentos?
Kurtz-Isto é muito interessante.Essa questão
das etnias ou das raças, ou das cores,eu prefiro
falar cor por que uma cor não corresponde a uma
etnia,o
Brasil tem uma das mais miscigenadas populações
do mundo, então não se pode generalizar
quando falamos da nossa população.Mesmo
com este cuidado é muito perigoso achar que existe
uma característica racial, de cor , ligada a uma
resposta farmacológica . Se considerarmos os africanos,
onde não há variação de raça
ou de cor, a variabilidade dentro de um mesmo grupo étnico
é muito grande .É um perigo valorizar a
questão da etnia em função da variabilidade
de gens existentes. O peso do fator étnico na farmacogenética
é muito pequeno . Não se deve tratar as
pessoas como um grande grupo por que as respostas são
individuais.
Ghente-Como
seria a viabilidade destes estudos individuais?
Kurtz-A idéia será no futuro na hora
que a criança estiver fazendo o teste do pezinho,
que consegue genotipar 500 genes com uma única
gotinha , armazenar informações suficientes
para iniciar uma terapêutica . É possível
visualizar num futuro não muito distante que a
metodologia vai estar disponível e ao nascer a
pessoa vai ter os genes que modificam as respostas farmacológicas
caracterizadas individualmente e cada um poderá
levar estas informações para o médico.
É uma questão tecnológica. O sujeito
poderá olhar e aplicar o medicamento exato. Hoje,
o custo para esta operação seria muito alto,
o tempo gasto também , mas é apenas uma
questão de tempo . Outra maneira seria no pré-natal.
Através do líquido amniótico pode-se
retirar amostras de sangue para definir os genes. Esta
seria uma informação absolutamente privada.
que o indivíduo poderia fornecer para o seu médico,
para a sua companhia de seguro , gerando um leque de questões
éticas . Hoje nós temos que ver o potencial
tecnológico,que é imenso.
Ghente-Não
há erro, a técnica é 100% simples
e eficiente?
Kurtz-Há variantes. O problema é que
nem sempre é um único gen que vai modificar
a resposta do organismo aos medicamentos. Para curar casos
como dependências (nicotina, remédios, etc...)
dificilmente uma resposta farmacológica (ação
e efeito) vai se dever a um único gene.
Ghente-São
todos os remédios que podem ser produzidos a partir
da farmacogenética?
Kurtz- Não. Não existe uma ligação
direta com o processo produtivo. A preocupação
maior é com a resposta individual ao medicamento.
No momento que se define que fatores genéticos
modificam a resposta a determinados medicamentos, isto
tem várias implicações, inclusive
no setor produtivo.
Ghente-Poderia
citar um exemplo prático?
Kurtz- Se o indivíduo quiser, ele terá
acesso as suas informações individuais.
Ele poderá, por exemplo, ficar sabendo se o seu
organismo tem uma maior ou uma menor capacidade para conseguir
parar de fumar. Nós estudamos muito a mutação
do gen TNT, que acontece em uma a cada 300 pessoas. Quando
este indivíduo vai ao médico e ele pergunta
se o paciente tem alguma alergia é importante passar
a informação de que o indivíduo tem
um problema genético que interfere na resposta
a um grupo de medicamentos. Esta informação
fará a diferença na hora do tratamento.
Ghente-Quais
são as conseqüências?
Kurtz-São variadas. Podem gerar repercussões
individuais,repercussões nas Agências de
Vigilância e na Indústria. Vamos supor que
uma indústria está fabricando um medicamento
e descobre-se um grupo que tem uma alteração
genética que se tomar o remédio vai provocar
uma reação tóxica. Automaticamente
o mercado consumidor ficará diminuído. Será
que a indústria irá continuar a produzir
um remédio que não tem consumo de massa?
E os remédios biotransformados, que são
aqueles que na sua forma não tem valor algum ,
dependem de uma reação do organismo para
fazer efeito? Se há uma variação
muito grande no efeito do medicamento na população,
o remédio virará um medicamento órfão,
com um custo muito maior.
"Para o bom desenvolvimento das
pesquisas temos que combater a "demonização"
com que é tratado o acesso a informação
genética".
Ghente-A
Rede de farmacogenética já desenvolveu algum
estudo?
Kurtz-Já. Nós publicamos dois artigos
sobre farmacogenética. Ao todo nós já
temos genotipados 700 indivíduos. O trabalho foi
desenvolvido em cima de um gen muito importante, que é
o que determina a resposta a um grupo de medicamentos,uma
tiopurina que é utilizada nas leucemias da infância.
Dependendo do genótipo, pode-se prever e impedir
uma reação tóxica muito séria.
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(75 Kb) para ler a publicação.
Outro estudo realizado teve como parâmetro a divisão
dos indivíduos em três grandes grupos: brancos,
negros e intermediários.Se compararmos a população
caucaziana americana e européia (pele branca)a
freqüência do gen TNT é de 0,5 a 5%.Nos
japoneses é de 20 a 30%, uma diferença muito
grande.Os indivíduos que tem este tipo de mutação
são incapazes de destruir a nicotina. Eles fumam
e ficam com o nível de nicotina alto durante longos
períodos. Na nossa população temos
uma freqüência de 0,6% deste alelo defeituoso,
que é correspondente aos caucazianos europeus e
americanos já que certamente nós não
somos orientais. No Brasil este 0,6% se distribui assim:1%nos
brancos, 9% nos negros. Não ocorreu nenhum registro
nos intermediários.Este estudo reafirma a característica
diferenciada entre os indivíduos, inclusive quando
separados em grupos. Pela lógica , os indivíduos
de cor intermediária deveriam estar na média
entre os brancos e os negros, mas não ocorreu.
Ghente- E na área do tratamento do câncer?
Kurtz-No caso do câncer é tudo muito
mais complicado . O Câncer não é uma
só doença, são 200 doenças
completamente diferentes, não há o câncer
e sim os tumores . Na quimioterapia do câncer existe
um outro complicador:uma coisa é fazer o estudo
da metabolização dos medicamentos, saber
como as enzimas destroem os medicamentos. Os genes que
codificam estas enzimas são altamente variáveis.
Este é o caso da nicotina. É um gene que
codifica a enzima que destrói a nicotina. No câncer,
além da bagagem genética que cada indivíduo
herdou de seus pais se tem uma genética do tumor
diferente. O tumor tem mutações que não
estão nas suas células originais. Vamos
ter um genótipo do tumor que é diferente
do resto do seu corpo. O medicamento pode ser metabolizado
no tumor de uma maneira diferente que ele vai ser metabolizado
no resto do seu corpo .
Ghente
-Como começou o estudo da farmacogenética?
Kurtz-Quando analisamos a história da Farmacogenética
, percebemos que três grupos de medicamentos permitiram
a criação desta ciência , um deles
é a isoniazida que é a substância
básica do tratamento da tuberculose. Esta foi a
primeira doença a ter claramente demonstrado que
havia uma alteração genética que
fazia diferença na resposta ao medicamento . Havia
um grupo chamado metabolizadores lentos e um grupo chamado
metabolizadores rápidos. Uns mantinham o nível
da isoniazida muito mais alto no plasma e metabolizavam
lentamente. Outros metabolizavam rapidamente, demonstrando
claramente as diferenças individuais.
Ghente-Quais
são as etapas para se trabalhar com a farmacogenômica/farmacogenética?
Kurtz-Primeiro é preciso identificar quais
os genes se quer reconhecer a diferença . Se estamos
lidando com farmacogenética queremos determinados
genes. Se o caso é de doenças cardiovasculares
os genes são outros. Faz-se o estudo fundamental
para saber quais são os genes que afetam a resposta
aos medicamentos. Pode ser que além de afetar a
resposta aos medicamentos também afetem as doenças,
o envelhecimento, etc.... .
Vamos verificar como aparecem estes genes: No aspecto
da farmacocinética (Como o organismo atua sobre
as moléculas dos medicamentos: absorção,
eliminação, metabolização,
etc...) e no aspecto dos receptores , na farmacodinâmica.
Ghente-Existe
alguma pesquisa no caso das doenças negligenciadas?
Kurtz-É possível que exista, principalmente
na área da Hanseníase. Na Fiocruz um grupo
pesquisa se a resposta aos medicamentos usados para o
tratamento da hanseníase tem ligações
diretas com alterações genéticas.
Ghente-E
os aspectos éticos? O mau uso da informação
genética pode gerar conseqüências sérias
para o indivíduo...Existe alguma legislação
a este respeito?
Kurtz-Não existe nenhuma legislação
nem no Brasil nem no mundo. O país que mais está
próximo a ter algo regulamentado é a Inglaterra.
Esta questão de poder usar ou não a informação
genética recai sobre a idéia de "demonização",
(Este termo foi extraído de uma Instituição
de Ética inglesa, a Nuffiled ) onde a informação
genética não é melhor do que as outras.
Toda informação médica é privilegiada.
Ela pertence ao médico e ao paciente. A informação
genética tem que ser tratada da mesma maneira .
O seguro de saúde exige algumas informações:
se a família tem riscos cardíacos, diabetes,
etc....Isto vai interferir no preço do seguro.
Estas relações comerciais entre a informação
privada e a conseqüência securitária
é uma área a ser estudada. Há uma
preocupação em se derrubar este mito que
se criou em torno da informação genética,
caso contrário pode-se ter prejuízo para
o desenvolvimento das pesquisas e das terapias gênicas.
Será que a informação genética
precisa de uma salvaguarda maior do que a salvaguarda
que o médico deve ter com relação
a qualquer exame do seu paciente? Esta pergunta vale uma
boa reflexão.