Leia também: Regulamentação
da identificação humana por DNA
O pesquisador titular e coordenador dos Cursos
de Biossegurança da Fundação Oswaldo
Cruz, Silvio Valle ,apresenta artigo sobre os primeiros
impactos resultantes das pesquisas básicas no campo
da biologia molecular ocorrida nos últimos 20 anos.
Aconselhamento Genético: uma ferramenta para melhorar
a história familiar da população
Sobrevida dos portadores de doença genética
aumenta significativamente, enquanto a legislação
nesta área fica cada vez mais obsoleta
Por Karla Bernardo Montenegro

Possuir uma doença genética em uma sociedade
despreparada para lidar com qualquer coisa diferente dos
padrões de beleza e saúde culturalmente estabelecidos,
é tarefa das mais difíceis. A atleta Alessandra
Januário dos Santos foi cortada - e depois reintegrada-
da Seleção Brasileira Infanto-Juvenil de Vôlei
após ser avaliada pelos médicos da Confederação
Brasileira de Vôlei (CBV). Motivo? Ela apresenta o
traço falciforme, doença genética mais
freqüente no Brasil. No Rio de Janeiro, a cada 22 crianças
que nascem, uma apresenta o traço. Apesar da atleta
não manifestar a doença ( ela apenas possui
um fator de risco) , os médicos alegaram que o esforço
intenso poderia desencadear problemas graves ou até
levá-la a morte. O exemplo de Alessandra demonstra
como estamos despreparados para conviver e lidar com estas
pessoas que ficam vulneráveis a discriminação
social , profissional e muitas vezes familiar.
O
especialista em genética médica, Juan Llerena,
há 15 anos coordenador do departamento de genética
do Instituto Fernandes Figueira, no Rio de Janeiro, trabalha
com o dia-a-dia dos casais que procuram um planejamento
familiar ou por que já tiveram gestações
com filhos com alguma doença genética ou a
mulher está em idade avançada para a gravidez,
no Brasil, depois dos 35 anos. A partir do estudo da história
da família o especialista é capaz de identificar
os riscos de uma ocorrência ou recorrência de
determinada doença e orientar o casal sobre o que
pode ser feito diante de uma dificuldade. Infelizmente,
apenas uma minoria de casais procura o aconselhamento genético
antes de engravidar, o que sempre leva a conseqüências
graves.
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"Em
vez de discutir o ser humano dentro de uma ótica
moral, apenas com uma visão religiosa
do processo, temos que discutir o conceito do potencial
de vida"
Juan
Llerena
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Quando
a doença já existe, o Aconselhamento Genético
vai ser do tipo retrospectivo, o médico vai passivamente
diagnosticar a causa da doença e propor um tratamento.
A maneira mais simples de se identificar doenças
genéticas é o teste do pezinho, onde se observa
potencialmente a possibilidade de evolução
da doença.
Outra
aplicação importante do Aconselhamento Genético
é na fase pré-natal. Quando uma grávida
apresenta resultados anormais em um ultra-som a orientação
é recorrer ao Aconselhamento Genético para
obter todas as informações sobre a saúde
do feto. " Neste momento uma série de questões
se apresentam, inclusive no que toca o direito da família.
Existem limites para que o direito da mulher seja exercido
com toda a sua plenitude e liberdade em função
da não permissão de se interromper a gravidez',
destaca o médico, acrescentando que uma família
despreparada para lidar com uma doença pode piorar
a sobrevida da criança " Muitas vezes uma família
de nível social mais alto após superar a fase
de se achar imune acredita que em função das
oportunidades que possui vai alcançar a cura. A pior
constatação é que de fato isto não
ocorre e não raro, acontece a desestruturação
da família. Com o pobre, paradoxalmente o doente
é mais facilmente adaptado, já que a família
vive em condições precárias, a cobrança
da sociedade é menor, tudo fica menos complicado."
Para
o médico Juan Llerena, estes paradoxos trazem à
tona a discussão do aborto: "A ultrassonografia
obstétrica já está universalizada,
com um grande potencial de identificar defeitos estruturais
em um feto cada vez mais cedo. A transnucência nucal
esclarece muita coisa. De um lado a ciência se mostra
cada vez mais avançada, de outro, a legislação
não acompanha esta evolução. Em vez
de discutir o ser humano dentro de uma ótica moral,
apenas com uma visão religiosa do processo, temos
que discutir o conceito do potencial de vida", destaca,
informando que este termo foi primeiro utilizado pela bióloga
molecular Lígia Pereira. Para Llerena, "Células
agrupadas, por si só, não tem capacidade de
sobrevivência. O potencial de vida traz não
apenas o embasamento religioso de um ser humano ,mas a capacidade
de um dia ser independente. O embrião congelado,por
exemplo, é vida do ponto de vista biológico,mas
não tem potencial de vida, de sobrevivência.
Até ter alma, a possibilidade de adquirir uma capacidade
de independência está muito distante . Será
que nós possibilitamos esta oportunidade para os
indivíduos que nascem com má formação
congênita? Oferecemos a capacidade dos semi-independentes
realmente sobreviverem? Será que não é
muito pior tirar o direito da família em decidir
sobre o futuro desta gravidez?", reflete.
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"Enquanto
a sobrevida dos seres humanos considerados normais
aumentou três anos, a dos portadores de Down
aumentou 15 anos"
Juan
Llerena
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Apesar
dos entraves legislativos, atravessamos uma fase produtiva
na pesquisa genética. Assistimos ao aumento da sobrevida
dos portadores de doenças genéticas . O melhor
exemplo se caracteriza na Síndrome de Down. Enquanto
a sobrevida dos seres humanos considerados normais aumentou
três anos, a dos portadores de Down aumentou 15 anos.
"A questão da Síndrome de Down é
interessante. A sociedade otimiza a imagem do Down, mas
o que leva ao Down como evento biológico não
é falado. A estatística demonstra que 15%
das mulheres grávidas estão acima de 36 anos.
Se monitorarmos 15% do total de grávidas chegaríamos
a identificar quase 60% dos casos.", afirma . A realidade
é que o SUS ainda está longe de fornecer gratuitamente
á população testes genéticos
com exames laboratoriais de alta complexidade. "O ideal
é que se pudesse selecionar gametas para desenvolver
óvulos sadios, mas devido ao alto preço pouca
coisa neste sentido está sendo feita", esclarece
.
Para
Llerena, alguns cenários já estão sendo
dismistificados e outros ainda estão no começo:
" Um bom exemplo é uma creche comunitária
da prefeitura de Niterói, no Rio de Janeiro. Lá
convivem crianças normais, crianças com Down,
crianças cegas. Estas pessoas se tornarão
adultos com uma percepção diferente, aperfeiçoada
, das limitações humanas. Outra iniciativa
louvável é a identificação de
postos de trabalho para deficientes mentais", afirma
.
Ao
ser convidado a fazer uma auto-crítica da sua profissão,
Llerena destaca como principal entrave a infra-estrutura
precária no que diz respeito a logística do
atendimento. " Falta uma estrutura moderna de gerenciamento
hospitalar. O ponto crítico é a desorganização
na coleta e armazenamento dos dados clínicos. Tudo
é feito manualmente, burocraticamente. Nada está
facilmente acessível. A saúde pública
perde muito com esta realidade. Outra área que necessita
de melhoramento é a do primeiro atendimento. O profissional
que recebe as famílias tem que ser mais cordial,
mais humano".
No
que diz respeito a realização na sua profissão
Llerena destaca o privilégio de poder participar
de uma área médica que está em constante
evolução " Poder aplicar na prática,
no dia-a-dia, o avanço do conhecimento é muito
gratificante. Muitas famílias se sentem eternamente
gratas pelo atendimento oferecido pelo Instituto Fernandes
Figueira. Neste sentido a Fiocruz ocupa um espaço
estratégico na promoção da saúde
pública e o mais importante, não foge das
suas responsabilidades", conclui.
Leia também:
Regulamentação
da identificação humana por DNA
O pesquisador titular e coordenador dos Cursos de Biossegurança
da Fundação Oswaldo Cruz, Silvio Valle ,apresenta
artigo sobre os primeiros impactos resultantes das pesquisas
básicas no campo da biologia molecular ocorrida nos
últimos 20 anos.
