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Projeto Ghente -  Como surgiu a idéia da realização da tradução deste livro? Como esta obra pode auxiliar na formação de pensamento crítico acerca das novas tecnologias na área da reprodução humana?
Ana Maria - Surgiu a partir da relação intelectual de Henri Atlan com a Fiocruz, iniciada em 2001, quando ele veio ao Rio convidado por esta  instituição para apresentar uma série de palestras, principalmente na Fiocruz, mas também num Congresso Internacional de Filosofia da Natureza na UERJ e no Programa de Antropologia Social do Museu Nacional, da qual resultou um artigo (Atlan,2003b). Nesta ocasião, ele também tomou conhecimento de minha dissertação de mestrado, realizada em torno de sua obra e que fora defendida no mesmo ano, na ENSP-Fiocruz, sob a orientação de Luis David Castiel.

A relação de Atlan com a Fiocruz foi mantida através de um estágio que com ele fiz em 2002 na École des Hautes Études em Sciences Sociales, em Paris e de minha participação no Colloque “Déterminismes et complexités: de la physique à l’éthique (autour d’Henri Atlan)”, realizado no Centre Culturel International Cerisy la Salle, Normandia, em 2004, na condição de doutoranda em Ciências (especialização Saúde Pública) da ENSP-Fiocruz, sob orientação de Maria Cecília de Souza Minayo.

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  Prefácio de "Útero Artificial"

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Neste ínterim, Atlan e sua equipe do Hospital Universitário Hadassah, vêm mantendo contato com o laboratório clínico de estudos sobre AIDS da Fiocruz, sob a coordenação de Valdiléa G. Veloso, tendo em vista a possibilidade de realizar estudos clínicos conjuntos sobre uma nova vacina terapêutica contra a AIDS desenvolvida em Jerusalém. Dadas estas relações próximas com a Fiocruz, quando Cecília Minayo e eu recebemos de Henri Atlan seu livro L’Utérus Artificiel, recém-lançado na França, em 2005, a originalidade e importância de sua contribuição, tanto em termos de informação consistente acerca de uma novíssima tecnologia de reprodução como – e principalmente – no referente à densidade de sua reflexão crítica acerca de suas  repercussões culturais e éticas, logo nos pareceu pertinentíssima ao estreitamento do diálogo atlaniano com a vocação investigativa e questionadora da Fiocruz. Coroando este movimento, o primeiro lançamento da tradução brasileira do livro se deu no “Colóquio Caminhos do Pensamento: fronteiras entre ciências e humanidades”, com a presença de Atlan outra vez no Rio de Janeiro, em 1º de junho de 2006, desta vez sob os auspícios da UNESCO-Paris e da Fundação Biblioteca Nacional.

Ao falarmos da importância do "pensamento crítico" acerca das novas biotecnologias, mais do que nunca avulta a importância da "intercrítica" atlaniana. Com efeito, dado o impacto simbólico, cultural e emocional, das novas tecnologias reprodutivas torna-se impossível, ao se trabalhar com a racionalidade científica, deixar de se considerar as implicações da racionalidade mítica em quaisquer temas abordados em tais searas. Teóricos da comunicação como Ian McEwan (2006) acentuam como se vem criando uma tradição literária viva e palpitante, através de um já secular e vasto acúmulo de escritos em fronteiras fluídas – mais ou menos vinculadas a um dos dois campos – entre a ciência e a literatura científica. Nesta tradição, ao lado da neutralidade opaca e ‘hermética’ (para os não-cientistas) da maior parte da produção técnica científica, haveria obras como A origem das espécies de Charles Darwin com uma qualidade estética luminosa, típica da grande literatura. Estas propiciariam ao leitor leigo o prazer especial de ser conduzido por um cientista ou escritor científico em direção a uma idéia poderosa, abrindo caminhos insuspeitados de exploração e descoberta, sugeridos pela possibilidade de realidades surpreendentes, em futuros em geral indefinidos ou distantes. Deixando de lado a questão da "verdade", a inspiração iluminista que lateja em geral nestas narrativas científicas – inclusive nas ‘speculative fiction’ bem embasadas teoricamente –, pelo próprio fato da ciência ser um sistema de pensamento que sempre se auto-corrige, avança e refina sua compreensão de seus objetos de estudo, constituiria uma expressão cultural preciosa, democratizando o saber científico e ajudando a combater totalitarismos políticos e religiosos.

Lembremo-nos que a reflexão filosófica consistente, intermediando o diálogo das duas racionalidades, acresce a este quadro a pitada de excelência que livros como o Útero Artificial  nos oferecem, acentuando sua dimensão crítica – ou ‘intercrítica’. Atlan constrói seu argumento fornecendo dados técnicos e científicos fidedignos e claros em paralelo a uma narrativa elegante da trajetória mítica do “homem construtor de artefatos que interferem nos processos de geração de vida” desde a Grécia até um futuro inapreensível. Começa retomando um dos mitos gregos mais expressivos da reconstituição contínua da identidade ocidental contemporânea, em meio à pletora incessante de informações entrecruzadas acerca de como intervir, auxiliado pela técnica, em seu existir, o de Dédalo – veja-se crítica antropológica a respeito em Balandier (1999) e suas manifestações culturais na revista eletrônica Daedalus (mais informações nas referências, no final da entrevista). Dédalo pode ser considerado um  epíteto de nossa relação ambígua com a criação ou alteração de um ser vivo intermediada pela tecnologia, desde o terror de ficarmos presos num labirinto com uma quimera por nós próprios inventada até a esperança de tecer asas que nos libertem destes descaminhos, elevando-nos na direção do sol. Ao longo do livro, Atlan vai acompanhar os desenvolvimentos do exercício prospectivo do geneticista John B.S. Haldane em seu Dédalo do início do século XX, especialmente através de seu aproveitamento no clássico Admirável Mundo Novo de Huxley – exemplo magnífico de encontro entre a literatura científica, a "speculative fiction" e a ficção "tout court", nos moldes do Frankestein (1817) (quase "premonitório", divagaríamos...), de Mary Shelley.

Já em 1991, Atlan nos alertava acerca de como a educação se faz através da mídia e insistia na necessidade de um diálogo do tipo intercrítico entre os poderes da palavra científica, política e poiética (ou midiática). Se acrescentarmos à literatura no registro da ‘speculative fiction’ à mídia eletrônica (com a qual esta rapidamente se alia, inclusive através da Internet e com filmagens de livros de impacto), podemos reconhecer em algumas obras recentes, a versão ‘midiática’, de apelo junto ao público mais amplo, de temas tratados com grande seriedade reflexiva na ‘ética da biologia’ (termo que Atlan prefere à "bioética"). Tanto em seus livros anteriores – em especial em Le Clonage Humain de 1999 – como no Útero Artificial, Atlan enfatiza como sendo um dos principais problemas éticos da clonagem artificial o estatuto jurídico, social, cultural e afetivo das crianças que viessem a nascer destes procedimentos. Seriam tratadas como iguais às crianças: "naturais"? Como seu psiquismo se comportaria em relação a isto, inclusive a médio e longo prazo? Uma série de obras de ficção já aventa respostas (bastante pessimistas, em sua maioria) a estas mesmas questões, como Não me abandone jamais  de Kazuo Ishiguro de 2005  e A possibilidade de uma ilha, de Michel Houllebecq de 2006, para citar apenas algumas das mais bem construídas literariamente.

Voltando ao cerne especulativo do Útero Artificial e suas relações com uma abordagem crítica reflexiva:  virá o útero artificial a ser mais um passo das biologias reprodutivas convergente com a construção social e cultural do pesadelo de uma sociedade uniformizada em castas estanques à la Huxley ou, ao invés, contribuirá para o retorno a um éden vibrante sob o signo generoso de relações humanas oriundas de bases inteiramente (ou em parte) novas?

Os grandes temas míticos do paraíso e do inferno vem sendo bastante explorados ultimamente nos terrenos ficcionais ou semificcionais das speculatives fictions em que viemos nos detendo. Para contrapor – como Atlan mesmo o faz, no Útero Artificial, no referente à legislação e aos embates políticos que dizem respeito às mulheres – os nossos dois maiores pólos de influência intelectual, a Europa e os Estados Unidos, citemos o recente Radical Evolution de Joel Garreau (2005). Garreau também direciona toda a sua discussão em torno de como a aceleradíssima e inevitável “Curva” que estaria regendo os progressos biotecnológicos e das ciências de computação desembocaria no que ele chama cenários de paraíso ou inferno (the heaven and the hell scenarios). O cenário prevalente (ou prevail) – em relação ao qual o autor é decididamente otimista – seria ‘escolhido’ pelas opções humanas e guiado por um impulso transcendente humanista. De forma a justificar sua hipótese, Garreau divide a evolução humana em biológica, cultural e de engenharia, com forte ênfase a esta (ver www.kurzweilai.net), obliterando totalmente uma eventual ‘evolução afetiva (ou emocional)’.

Na elaboração mais sutil atlaniana – de acordo com um padrão mais freqüente na reflexão européia – as perspectivas otimistas dependem muitíssimo menos dos progressos das diversas formas de engenharia cibernética e biotecnológica aplicada ao humano do que da capacidade deste desenvolver mecanismos culturais e afetivos capazes de ‘propiciar’ um cenário mais favorável, que, aliás, de acordo com o determinismo espinosista que guia a reflexão atlaniana, não nos seria garantido pelo que reconhecemos como ‘escolhas’ deliberadas. Uma ampla gama de sofisticados problemas, em fronteiras intercríticas e filosóficas, se abre a partir daí. É neste sentido que o consideramos ‘autor seminal’, como aquele a partir de cujas idéias – à tort et à raison –  emerge todo um rico espectro de desafios conceituais, epistemológicos e práticos,  sem a pretensão da unicidade de uma resposta abrangente.

Neste ponto eu gostaria de frisar o interesse de contribuições brasileiras à inspiração atlaniana, tirando partido de nossa eqüidistância dos excessos das influências européia e americana  e adequando-as a especificidades nacionais, como as inerentes a nossa cultura – que é tão multifacetada quanto característica de uma mesma nação – e a nossas expressões de afetividade dentro dela. Atlan sugere que, no Éden revisitado (ou ‘pesadelo superado’), poder-se-ia reconhecer o ‘prenúncio de laços sociais e afetivos novos’ (2006:109) (grifo nosso), onde vínculos baseados em eleições individuais substituiriam, eventualmente (mas talvez não em todos os casos), aqueles de origem biológica. Embora o autor não faça nenhuma referência explícita a uma ‘evolução afetiva (ou emocional)’, concorda com a possibilidade de “uma evolução dita cultural, diferente da evolução biológica e muito mais rápida” (p. 110), correspondendo a uma humanização que seria em parte uma saída progressiva de nossa espécie da animalidade. Assim, podemos nos dispor a, partindo de uma interpretação livre do seu texto, associá-la à nossa hipótese de uma ‘evolução afetiva’ em curso, como pressuposto, inclusive, a uma “condição mínima de ordem moral” a este retorno ao Éden, a saber: “uma compaixão ‘maternal’ desinteressada, uma preocupação com o outro e com a justiça (que) deverão impregnar as relações humanas” (p.113).

Neste mesmo diapasão, as autoras do prefácio, como antropóloga (Maria Cecília de Souza Minayo) e psicanalista (Ana Maria Coutinho Aleksandrowicz), lançam as sementes – ainda em estado de incubação –  para aprofundar as discussões sob as condições feminina e masculina no Brasil, aproveitando algumas das profícuas observações atlanianas acerca da multiplicidade de papéis possíveis à mulher não mais obrigatoriamente subjugada a suas representações ‘procriativas’. Sublinhe-se que ao mesmo tempo o homem deverá vir a partilhar algumas destas mesmas representações, donde similares impasses e novas perspectivas simbólicas em suas relações com a mulher e com sua própria masculinidade. Como, dentro das características culturais brasileiras e consoante à nossa hipótese de uma ‘evolução afetiva’ em curso, em seu nível psíquico mais profundo se dariam os auto-reconhecimentos e dinamizações de masculino e de feminino, assim como as revitalizações significativas de termos como andrógino, hermafrodita e  transexual, em seu embate transformador com as demandas societárias?  Por outro lado, como seriam experimentados, sem perder o vigor de suas origens na diferença ‘sexual’ à la Freud, os critérios de autonomia e dependência libidinais em suas repercussões obrigatórias na esfera política, como bem o demonstram Castoriadis (1995) e Zizek (2003)? 

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